O concerto de Hilight Tribe, ou o dia em que levei a minha mãe a uma festa de trance
Tem 58 anos, parece minha irmã e tem sempre medo de ficar cansada no dia seguinte. Mas, a verdade, é que tem mais energia do que qualquer amigo meu. Nos concertos, saltamos e gritamos como se fosse o último das nossas vidas, no Ecstatic Dance, dançamos até nos doer os pés e, nas viagens, caminhamos até termos riscado todos os sítios que queremos conhecer das nossas longas listas. Apresento-vos a minha mãe, a minha melhor companhia.
Quando lhe falei do concerto de Hilight Tribe, perguntou-me: “O Luís quer ir? Eu gostava.” Claro que podíamos ir os três, mas a logística desde que Mini Soumúsica nasceu tem de ser bem pensada. “Vamos as duas. Mas olha que aquilo vai ser como uma festa de trance!”
Entrámos no LAV - Lisboa Ao Vivo às 20h36 do Dia da Liberdade. No palco, já se ouvia o set de Renato Oliveira, fundador daquele que considero um dos melhores projectos nacionais e que tantas noites incríveis já me proporcionou: Olive Tree Dance. A acompanhar vários dos temas, ouvimos o saxofone e a flauta de Noa Sandel, música nascida em Jerusalém, que trouxe um som orgânico e etéreo a um set de psicadelismo tribal com BPMs que poderiam anunciar uma hora mais tardia, mas que prepararam na perfeição para o que se avizinhava. Para marcar o dia, Renato Oliveira fez-se acompanhar ainda de um cravo, que ergueu durante um remix com parte instrumental de “Venham mais cinco”, de Zeca Afonso.
Eram 21h35, quando Hilight Tribe subiram ao palco para gáudio de todos. Ao longo de 1h45, entraríamos numa viagem às raízes da música e às nossas origens. Considero que não há nada mais puro do que ouvir o som de um djambé e de um didgeridoo para mergulharmos dentro de nós. É, aliás, na música tribal que tantos métodos de meditação, respiração e xamanismo se centram.
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| Facebook / Hilight Tribe |
Presença assídua em festivais como o Boom, mas também em concertos em nome próprio, os Hilight Tribe provavelmente já terão actuado perto de duas dezenas de vezes no nosso país, mas, sempre que vinham, acontecia algo que me fazia adiar o plano de os ver. Foi, por isso, e como se pode imaginar, absolutamente épico ouvir a icónica “Free Tibet” ao vivo - tema que voltou depois a passar no final, em versão gravada, enquanto os membros do grupo dançavam e agradeciam ao público na frente de palco.
Dois dias depois, ainda me encontro estupefacta com a rapidez com que tocam os seus instrumentos, sem interrupções (a par da técnica de luzes que os acompanhava com uma tal velocidade na mesa que mal se viam os seus dedos).
É certo que não foi uma ‘festa de trance à séria’, daquelas no mato, que às 20h36 estão longe de começar. Mas, mesmo assim, a minha mãe pôde experienciar os sorrisos, a energia e, aquilo que mais gostamos, o som tribal acústico (obviamente sempre com vários efeitos pré-gravados e eletrónicos).
No final, os cravos voltaram ao palco, nas mãos de Greg Hilight, Ludo Ji, Seb, Roots, Rishnu, e Mathias Duroy. Que bonita forma de terminar este dia com aquilo que a mim, e calculo que a tanta gente, proporciona a sensação de maior liberdade: dançar, sem vergonha ou julgamentos, com toda a energia, deixando os problemas para trás, ao lado de sorrisos genuínos e onde cada um se pode expressar como quer, seja com óculos de sol no rosto, bolas Baoding na mão, ou com um leque gigante para abanar todas as pessoas da sala.
Texto: Sofia Robert
Instagram: @soumusicapt
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