A missa de Rosalía: entrámos já convertidos, saímos deslumbrados

No dia seguinte ao primeiro concerto da tournée Lux de Rosalía, em Lisboa, o radialista Renato Duarte publicava um vídeo na sua conta de Instagram a parodiar o facto de termos todos "apanhado Rosalite", a doença que pôs um país inteiro a falar deste fenómeno: os que foram, os que queriam ter ido, os que iam nessa noite à segunda data, os que gostam, e os que não gostam e criticam.

No meu caso, não só apanhei Rosalite, como uma valente amigdalite. Razão pela qual tive de descartar todas as regras de actualidade que ditam o jornalismo, e escrever este texto quase uma semana depois. Correndo o risco de ser absolutamente datado e, admitindo que o meu cérebro ainda se encontra atordoado com penicilina, vou fazer o melhor esforço para contar o que aconteceu na noite de 8 de abril.

Com dores nas pernas e na garganta, e cheia de arrepios de frio, entrei na MEO Arena às 20h30, com esperança que o espectáculo, marcado para aquela hora, estivesse atrasado. Passados dez minutos, a sala ficou escura e os músicos sentaram-se no palco em formato de crucifixo no centro da plateia.

Vários dançarinos organizavam o palco principal, como se de um bastidor, ou uma galeria de arte se tratasse. No centro, uma caixa abria-se. Vestida de bailarina, Rosalía surgiu em pontas. "Sexo, Violencia y Llantas", que abre o tão aclamado álbum "Lux", foi o tema escolhido para abrir esta data da tournée homónima.

Seguiram-se "Reliquia", "Porcelana", "Divinize (com trechos de "Thank You", de Dido), e "Mio Cristo Piange Diamanti", que terminou o primeiro acto, me levou às lágrimas, e me fez questionar se a artista teria criado uma arrojada setlist que percorresse o álbum do início ao fim.

Ao longo de duas horas, divididas por quatro actos, como uma peça de teatro ou uma ópera, Rosalía passou por 24 temas de "Lux", incluindo as duas faixas que se encontram apenas na versão física do longa duração ("Novia Robot" e "Focu ’ranni"), e do anterior "Motomami", e ainda a famosa "Can't Take My Eyes Off You" de Frankie Valli, com a presença de fãs no palco, antes de um hilariante momento estilo confessionário com o influencer chinês Marcelo Wang.

A artista mostrou as suas várias versões, foi bailarina clássica, fiel, anjo, mas também atrevimento e ousadia. Dançou, cantou em pontas, chorou, fez chorar e rir. Tudo acompanhado por uma orquestra, conduzida pela maestrina cubana Yudania Gómez Heredia.

A orquestra acompanhou todas as músicas, brilhando em momentos inesperados como nos temas mais eletrónicos, sendo exemplo disso a versão de "CUUUUuuuuuute", com trechos de "Sweet Dreams (Are Made of This)" dos Eurythmics, que transformou a MEO Arena numa rave.

"Estou muito feliz por estar aqui", foi dizendo várias vezes, entre o português, castelhano e o inglês, lembrando as suas passagens pelo nosso país, como a vez em que actuou no Theatro Circo, em Braga, em 2017, quando "ninguém a conhecia fora" de Espanha.

As palavras e os idiomas são pontos fulcrais no trabalho da artista, que apresenta 13 neste último álbum. Também em palco, as palavras querem ser entendidas. Por cima da boca de cena, as letras das músicas iam passando, em português, com a indicação da língua em que estavam a ser cantadas.

Foi também, e como era esperado, em português que se fez o grande momento da noite. "Quando comecei, cantava em bares, em restaurantes, em casamentos, em baptizados, em comunhões. Às vezes em troca apenas do jantar. E aprendia sempre músicas novas. Uma vez, aprendi 'Escrevi Teu Nome No Vento' e, foi assim, que conheci a Carminho."

A fadista e a cantaora (cantora de flamenco) interpretaram o tema gravado em conjunto, "Memória", naquilo que poderia bem ser uma competição para ver qual a melhor voz.

O concerto terminou com Rosalía vestida de anjo a cair. Para regressar com um dos temas mais bonitos de "Lux", "Magnolias", depois de mostrar que a música considerada pop está bem entregue. Artistas como Raye e Rosalía desafiam os limites, não só da sua voz, mas da criatividade, com a proposta de trabalhos e espectáculos ao vivo conceptuais, e geniais. Com vozes absolutamente inacreditáveis, compõe para orquestra, cantam com emoção e, sobretudo, com verdade. Enquanto mostram que para ser estrelas globais não é preciso serem 'plásticas' e inatingíveis.

Dizem piadas, abraçam as pequenas falhas, mostram que são miúdas como outras quaisquer, com desgostos de amor, e preocupadas com temas sociais e actuais.

Já em casa, ainda a digerir e a contemplar a sorte da tríade que este ano já me presenteou (Raye, em Barcelona, a "Carta Branca" d'A Garota Não, e Rosalía), via a quantidade de amigos e conhecidos que tinham estado na MEO Arena. Respondi a vários stories e publicações e dei por mim a falar com pessoas com quem não falava há meses ou anos. Porque é este o poder da música, unir-nos e fazer com que nos esqueçamos, nem que seja por duas horas, dos problemas do mundo.

E... a partir de agora, convidem-me apenas para concertos com orquestra!


Texto: Sofia Robert


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