Rock in Rio: O cartaz de luxo do terceiro dia levou-nos numa viagem ao tempo

Foi no sábado, 27 de Junho, que a minha geração (36 anos), e a dos meus pais (59 anos), revisitou a adolescência, ao som de temas que já não pensávamos alguma vez ver ao vivo ou que, muito provavelmente, vimos pela última vez.

Eram 16h40 quando entrei no Parque Tejo, em modo acelerado, para não perder o concerto de 4 Non Blondes que havia começado há 15 minutos. Foi, aliás, assim a minha vivência neste 'Legends Day' do Rock in Rio Lisboa: uma correria entre o Palco Mundo e o Palco Super Bock, na tentativa, por vezes falhada, de não perder um minuto de cada concerto.

Não sou de gastar tempo em filas para receber brindes, e as vertigens afastam-me sempre da roda gigante, mas, desta vez, nem consegui fazer uma visita aos outros palcos. A minha missão era clara.

Ainda estava bem longe do palco principal, quando já conseguia ver o inconfundível chapéu de Linda Perry, vocalista da banda que terminou em 1995, e que se encontra numa tournée de reunião. Voz rouca, a mesma atitude 'rockeira', por vezes com falhas na afinação, mas o arranque perfeito para aquele que seria um dia memorável.

"O meu pai era português e a minha mãe era de São Paulo, mas ele não deixava que se falasse a língua portuguesa em casa. Tenho muita pena disso", referiu Linda num dos vários momentos em que se dirigiu ao público.

Ficou para o final o que todos esperavam. "What's Up?" é provavelmente um dos maiores hinos dos anos 90 e, a entrega da banda e do público, provou isso mesmo. O tema foi alongado (e muito) com a cantora a descer para junto da plateia. Houve lágrimas, coro e a primeira viagem no tempo.

Instagram / Rock in Rio

Uma corrida levou-me ao Palco Super Bock para ver The Wailers. Já não há Bob Marley, nem Bunny Wailer, nem Peter Tosh, nem mesmo nenhum dos membros originais da icónica banda que acompanhou a maior lenda do reggae de sempre. Liderada por Aston Barrett Jr., filho de Aston 'Familyman' Barrett, conta actualmente com o holandês Mitchell Brunings na voz.

"Stir It Up", "Waiting in Vain", "Get Up, Stand Up", "One Love", "Buffalo Soldier", e "Could You Be Loved" foram alguns dos temas cantados em uníssono por todos os presentes, num final de tarde onde o calor nos podia remeter para uma praia paradisíaca na Jamaica. "Peace, love, unity", repetia Mitchell Brunings para que todos acompanhassem com gestos.

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No palco principal preparava-se outra lenda jamaicana. Shaggy trouxe o seu inconfundível carisma, voz grave (e sexy) e o ar de player que sempre o caracterizou. Falou constantemente para as mulheres, dançou de forma sugestiva com a zona pélvica, numa actuação que poderia ser considerada misógina, caso não se conheça a cena musical na Jamaica, sobretudo o dancehall.

Foi tudo o que se esperava: interpretou a personagem a que sempre nos habituou, desde o fato de seda branco, aos diamantes ao peito, e mostrou ainda ter a mesma voz e os mesmos 'moves'. Temas como "Boombastic", "Angel" e "It Wasn't Me" levaram todos ao rubro.

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Já no concerto de Joss Stone, o tom era outro. Houve espaço para as músicas que mais marcaram a sua carreira, como "Super Duper Love" e "Right To Be Wrong", mas também para novos temas, e até um pedido de casamento em palco.

A artista, que tinha partilhado o cartaz também com Rod Stewart no Rock in Rio Lisboa 2008, continua a cantar descalça e a encantar com uma voz absolutamente intocável.

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Já Cyndi Lauper acusa os seus 73 anos na voz, mas não na atitude e entrega. Na sua estreia em Portugal, cantou os icónicos temas que, muito provavelmente, já não esperávamos alguma vez ouvir ao vivo, com uma atitude punk e irreverente de outros tempos.

Num cenário idílico, com a Ponte Vasco da Gama iluminada, e uma lua quase cheia, "True Colors" e "Time After Time" foram dos momentos mais mágicos da noite. O concerto terminou com "Girls Just Want to Have Fun", com toda a banda a usar roupa criada pela artista japonesa Yayoi Kusama.

"Esta é para quem tem tentado empurrar as nossas irmãs para baixo. Não vamos voltar atrás", foi a mensagem final da artista que se fez acompanhar por uma banda exímia (incluindo uma baterista grávida de seis meses), praticamente toda feminina.

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Sir Rod Stewart era o grande senhor da noite que todos aguardavam. Aos 81 anos, como é de esperar, também a voz lhe falha. Mas dono de algumas das músicas mais marcantes das últimas décadas, presenteou-nos com um espectáculo sólido, com uma banda, também maioritariamente feminina, absolutamente brilhante.

"Forever Young", "Hot Legs", "Baby Jane", e "Do Ya Think I’m Sexy" foram cantadas a plenos pulmões por toda a plateia, cruzando várias gerações; mas também houve espaço para temas de outros artistas como "It’s a Heartache", de Bonnie Tyler, "The First Cut is the Deepest", de Cat Stevens, "I’d Rather Go Blind", de Etta James, ou o dueto com Tina Turner "It Takes Two" e, claro "Sailing", de Sutherland Brothers. Se esta é mesmo a sua digressão de despedida, vamos ter saudades, Rod.

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Depois de ter estado presente em todas as edições do Rock in Rio Lisboa, com excepção da última, estava com poucas expectativas sobre o novo recinto, mas saí rendida. O serviço de shuttle funcionou muito bem, a inclinação do terreno permite boa visibilidade e a paisagem é um ponto extra, apesar da óbvia falta de árvores e sombra.

A organização voltou a mostrar como se produz um festival, com a possibilidade de entrada de copos reutilizáveis de outros eventos, de garrafas com tampa e de cantis - a disponibilidade de água gratuita devia passar a ser obrigatória em todos os festivais de verão. A forma como tudo estava planeado nas zonas das filas para apanhar o shuttle na Gare do Oriente, para entrar no recinto e para as casas de banho no seu interior permitiram sempre fluidez e tempos de espera quase inexistentes.

No fim, saímos ainda a entoar os hinos maiores destas lendas que marcaram a nossa adolescência, minha e da minha mãe. E não é isso que se quer de um festival de verão? Isqueiros (agora substituídos por lanternas de telemóvel), braços no ar que acompanham o ritmo da música e cantar até ficarmos roucos.


Texto: Sofia Robert


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