A Garota Não e a extraordinária ode à sua mãe (e a todas as mulheres)

“Carta Branca: A Garota Não - A Vulgar Mulher Extraordinária”. Era este o título do cartaz que vi partilhado na página de Instagram A Garota Não Fãs, em Novembro. A sinopse do espectáculo era enigmática, dando apenas a entender que se tratava de uma homenagem à mãe. Comprei os bilhetes sem hesitar.

Já em Agosto do ano passado, tinha ido de Lisboa a Figueiró dos Vinhos, propositadamente para ver o seu concerto tão despretensioso, cru e sublime que fez valer cada quilómetro percorrido.

Foi só na passada semana que li a ficha técnica desta Carta Branca oferecida pelo CCB, que convida artistas a criarem espectáculos únicos. A lista de convidadas impressionou-me. Fui sem saber o que ia ver, mas com a certeza que não seria nada menos do que genial. Saí a debater e a concluir que terá sido o melhor espectáculo que já vi.

No Dia Mundial da Poesia, e no mês em que se celebra o Dia da Mulher, Cátia Mazari (nome que não consta na certidão de nascimento) Oliveira, ou A Garota Não, despiu-nos a todas. Os arrepios foram tantos que, se não fosse o ar abafado que a meio do espectáculo se sentia, poderia pensar que o ar condicionado estava ligado no máximo.

Foi com um agradecimento ao Centro Cultural de Belém que A Garota Não começou esta actuação que explicou tratar-se de uma biografia de Maria Fernanda, sua mãe. “Como nenhum grande biógrafo se interessou por escrever a história desta vulgar mulher tão extraordinária, achei que uma Carta Branca seria um bom lugar para corrigir este lapso histórico. Bom, não uma biografia formal, com uma linha cronológica formal, mas um ensaio do que foram os medos, as forças, as batalhas de fora e de dentro”, lê-se na sinopse escrita pela autora, presente no folheto distribuído à porta da sala.

Ao longo de duas horas e meia, Cátia apresentou um espectáculo criado por si com música; acompanhada pela banda (Sérgio Miendes, João Mota e Diogo Arranja), e as vozes de Joana Alegre, Orlanda Guilande e Bárbara Wahnon; fotografia, dança, poesia, e com os convidados Ana Bacalhau, Ana Deus, Angel Gomes, Iza da Costa, Joana Seixas, José Nobre, Natália Abreu, Paula Cortes, Rita Redshoes, Selma Uamusse e Sheila Pereira.

Foi contada a história de vida de Fernanda, dura como só quem passou pelo Estado Novo sabe. Como ficou órfã dos dois pais, aos onze anos, e no espaço de duas semanas; como passou pela austeridade das freiras do colégio interno; como viveu um divórcio; todos os trabalhos que teve, dentro e fora de casa; a precariedade; a perda de uma filha, primeiro para as drogas e depois para o cancro; até ela própria passar pela ELA, a doença que acabou por levá-la a ela também.

A voz era bela, como a desta sua terceira filha, e as vizinhas pediam-lhe para cantar fados ao postigo. Não a conheci, mas sei agora que era sinónimo de colo, alegria e protecção dos animais. Era o espelho da vida das nossas bisavós e avós. E, entre textos, imagens, frases de intervenção e arrepios, A Garota Não foi homenageando as mulheres da sua vida, as da família e as que ouve nas colunas ou lê nos livros, mas também, e as mais importantes por serem esquecidas, as que não têm palco e as que não têm voz porque a violência as tirou desta Terra.

Pelo repertório eclético e tão bem construído, passaram, entre outros, os seus temas “Não sei o que é que fica” (originalmente gravado com Chullage), “Este país não é para mães” com Ana Deus, “Fronteiras invisíveis” com Selma Uamusse, “Mulher batida” (com a projecção de fotografias de vítimas de violência doméstica), “Levante-se uma escola”, e “No love (os lugares que inventámos)”. Houve ainda espaço para canções de artistas como Slow J, Elza Soares, e Capicua.

Cátia terminou esta extraordinária ode à sua mãe, e a todas as mulheres, afirmando que foi uma honra ser filha de Fernanda. Pela ovação de pé, que durou mais do que cinco minutos, é seguro afirmar: que honra a nossa poder ter assistido a um espectáculo tão visceral, disruptivo, e mais necessário do que nunca. Porque, se todos usássemos as cartas brancas que a vida nos dá desta forma, o mundo seria, certamente, um lugar mais bonito e justo.


Texto: Sofia Robert


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