Dois dias no MUSA Cascais
O reggae tem
encontro marcado todos os anos em frente à praia de Carcavelos, em Cascais.
A
tarde de sexta-feira estava solarenga e ventosa, como aliás tem sido todos os anos. O palco principal do MUSA abriu com a banda Like the man said, nome que me
explicaram ter surgido da atribuição a várias citações (de Bob Marley, Peter
Tosh, Burning Spear, etc.) aquando das reuniões deste grupo português.
A banda, que
trocou a língua inglesa pela língua portuguesa nas suas canções com o objectivo
de tornar a ligação mais directa com os fãs, está em fase de divulgação de
novos temas dos dois próximos álbuns, “O Bravo Relógio do Não Tempo” e “1973”,
criados com o intuito de “trazer de volta o roots reggae, que é o que gostamos”.
O segundo
artista da tarde foi Andread Blessed, o cantautor brasileiro, residente há 14
anos em Portugal. “Eu comecei a entrar no mercado do reggae a convite do meu
amigo Janelo da Costa dos Kussondulola, comecei como guitarrista dele e a
partir daí fui criando gosto, comecei a compor as minhas próprias canções e
então surgiu este projecto, Andread Blessed”, explica no final do concerto. O
seu próximo EP, com lançamento previsto para Outubro deste ano, fala de “amor
incondicional. Amor de pai para filho, de mãe para filho, de irmão para irmão.
Não mais guerra”.
Seguiu-se o francês
Naâman no Palco MUSA CASCAIS, com quem falei no dia seguinte. O artista
mostrou-se surpreso com a aderência do público e disse esperar voltar
brevemente ao nosso país. Um dos momentos altos desta forte actuação foi o single “House of Love”. Quanto ao novo
álbum, “Beyond”, conta que “irá sair no dia 6 de Outubro. Tem reggae, mas
também tem algo mais, outro estilo. Tentei pôr o máximo de luz que consegui, o
máximo de amor, assim como o meu beatmaker
e os meus músicos também... Acho que é um bom álbum”.
Fantan Mojah foi
o próximo a subir ao palco. Em fase de promoção do álbum “Soul Rasta”, pôde-se
ouvir temas como “Jah Give Us Life”, “Rasta Got Soul” ou “Cool And Irie”. Sobre
se a música pode curar o mundo? “A música reggae já está a curar o mundo. É a
única música do mundo que junta as pessoas com vibrações positivas. As pessoas
têm de ouvir as letras, não o ritmo”, explica após a actuação.
Ponto de
Equilíbrio era a banda seguinte no palco principal do MUSA, mas estivemos um
pouco à conversa ainda antes do concerto. A banda que partilha o mesmo número
de anos de vida que este festival, responde quando questionada sobre a
importância de fundir géneros musicais, facto que se pode constatar no último
álbum: “uma característica do reggae é que ele é uma música universal. Até
porque o reggae influenciou o rock, o punk rock, mpb (música popular
brasileira) enfim, no mundo todo, todas as músicas começaram a incorporar o
reggae como um ingrediente na sua receita. Então o reggae dialogar com outras
vertentes é natural”. E poderá o reggae funcionar como arma política? “O reggae
sempre foi uma arma de educação, de consciencialização e isso o reggae nunca
pode deixar de ser porque se deixar de ser, já não é reggae. Acreditamos que
essa é a principal característica deste género musical, ser uma ferramenta de
transformação social, política e espiritual”, respondem.
A banda
presenteou o público português com alguns dos seus maiores sucessos partilhando
a mesma língua e conseguindo assim uma ligação mais forte que o artista
anterior.
O cabeça de
cartaz da noite foi Protoje. O artista jamaicano, que comparou o público português
ao público jamaicano, trouxe muita energia, por vezes não acompanhada pela
plateia, com destaque para os temas “Who Knows” e “Rasta Love”, ambos gravados
em colaboração (Chronixx e Ky-Mani Marley, respectivamente). Houve ainda tempo
para trazer uma fusão de grunge e reggae com “Smells Like Teen Spirit” dos
Nirvana!
Quando
questionado sobre o impacto de viajar pelo mundo na sua música, responde-me: “Tem
um grande impacto, cada sítio que vais apanhas novas vibrações, novas
experiências e percebes que, independentemente de onde vais, toda a gente está
conectada”.
O segundo dia do
MUSA, ainda mais ventoso que o primeiro, começou com a notícia do cancelamento
do concerto de Horace Andy. Por motivos alheios à organização e com a
proximidade do início dos concertos, não houve substituição, tendo havido
alguns ajustes de horários e a promessa de que a banda The Skatalites iria
acrescentar um tributo ao Studio One (mítico estúdio na Jamaica) à sua
performance.
A abertura do Palco
MUSA CASCAIS ficou a cargo do grupo Kingdom Stage. À semelhança de Andread
Blessed, esta banda tem nacionalidade brasileira, mas reside no nosso país. O
grupo disse ter gostado muito de actuar neste festival e que planeiam ficar
pelo menos até ao final do ano por terras lusitanas.
Com um pouco
mais de público presente, chegaram os Rubera Roots Band. A banda conta com
elementos pertencentes a outros projectos musicais e referiu, numa conversa
pós-concerto, a importância do público jovem da plateia: “É bom ver malta nova
com atenção ao reggae, o reggae traz uma mensagem social também. É desde
pequenos que as nossas ideias se formam e é bom poder ter um contacto directo
com malta mais nova que daqui a uns anos vai poder implementar as visões deles
socialmente”.
Seguiam-se os
salvadores da noite, o mítico e maturo (53 anos de carreira) grupo The
Skatalites cheios de groove e ska
directamente da sua origem. Bem animados após a actuação, responderam quando
lhes perguntei se a música podia falar mesmo sem palavras: “As notas são
letras, a melodia é letra, a linha do baixo, ... É uma linguagem universal que
junta todas as pessoas. A primeira vez que fomos à Argentina, a Buenos Aires,
gravámos o concerto e as pessoas cantavam o instrumental tão alto que estavam a
‘afogar’ os instrumentos na gravação, por isso tivemos de baixar o som da
audiência na mixagem para podermos ouvir os sopros”.
O penúltimo
artista do palco principal foi Kabaka Pyramid que trouxe o seu reggae cheio de
mensagem e um pouco de hip hop. Ouvimos vários dos seus sucessos com destaque
para “No Capitalist”, “Worldwide Love”, “Warrior” e uma versão de “Welcome to
Jamrock” de Damian Marley. Mas o momento alto terá sido muito provavelmente a ‘battle’ entre Kabaka e um membro da
banda onde cada um vestiu uma camisola de futebol (Sporting e Benfica, que mais
poderia ser?).
Após o concerto,
e visivelmente entusiasmado com a recepção do público, contou quando lhe
perguntei sobre a importância da mensagem nas suas letras: “É tudo sobre a
mensagem, a minha música é só sobre mensagem. Para mim é importante que as
pessoas percebam a mensagem e é por isso que às vezes quando falo, tento
explicar o que digo nas músicas, para que as pessoas aprendam as letras e
interiorizem”. Será essa a razão da fusão com o hip hop? “Sim, claro. São
letras positivas. Vejo-me como um letrista e penso ser mais difícil e
desafiador ser-se positivo”, responde.
O último artista
da noite foi Gentleman, um nome já bem conhecido do público português, que
infelizmente não concedeu entrevista.
Com uma entrega
a que já nos habituou, desfilou os seus grandes hits, juntamente com alguns temas mais recentes, mas não esquecendo
“Superior”, “Dem Gone” ou “Different Places”; sendo que um dos momentos mais
bonitos foi a comunhão banda/público numa interpretação de “Redemption Song”,
de Bob Marley, com toda a plateia com as mãos ao alto fazendo o sinal da paz.
Mais um ano de
muito boa música, união e amor.
Texto: Sofia Robert
Fotografias: Luís Carvalho
Para mais fotografias: https://www.facebook.com/soumusica.pt
Instagram: @soumusicapt
*Queria deixar uma palavra de apreço à organização, sobretudo à Inês Pimenta que tão bem trata a imprensa e que permitiu todas estas entrevistas, e a todos os artistas que actuaram na Dub Arena e na Bass Station, e a que, infelizmente, não consegui fazer a devida cobertura.
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