O melhor (do) festival

[Parte II]

Claro que o melhor do festival é a música, mas deixemos isso para a terceira parte. Não costumam dizer que o melhor deve ficar para o fim?


Depois de quase 48h desde a partida, chegámos ao festival exaustos. Levantámos as nossas acreditações, eu do soumúsica.pt e os meus dois companheiros de viagem da Selajahfary. Quando finalmente nos preparávamos para relaxar e absorver a ideia de que tínhamos chegado, outro pequeno susto nos esperava: somos informados de que o campismo de caravanas já estava completo. Conversa em inglês com o staff, história sobre a nossa aventura, fotografia do pneu, reacções e... problema resolvido. Ou ainda havia alguns lugares vazios ou então a história do pneu acabou por nos ajudar.

Ficámos num bom lugar, resguardado e com electricidade, e com vizinhos muito simpáticos. Mas por mais entusiasmados que estivéssemos, a nossa estadia no recinto na primeira noite foi curta pois o cansaço tomou conta de nós. Foi, aliás, difícil recuperar de toda a aventura a 100% (dormir numa tenda também não ajudou muito).


O campismo do festival está dividido em zona para caravanas, zona para famílias, zona para tendas e glamping. As WC's têm sanitas de loiça e lavatórios, os chuveiros são obviamente de água fria que ajuda a combater o calor que se faz sentir, há ainda uma zona para lavar a loiça ou a roupa. Ainda no campismo há uma zona para cozinhar e para comer, serviço de padaria 24h, lavandaria, cabeleireiro, cacifos, carga para telemóveis, loja de campismo e mercearia 24h. Não falta absolutamente nada.

Para meu deleite, o chão por baixo dos nossos pés consistia numa terra barrenta que apesar do vento que se fazia ocasionalmente sentir, não levantava pó e não despertou nenhuma alergia das que por vezes teimam em me acompanhar nos festivais. Outro facto que me deixou muito feliz foi a não existência de mosquitos (quem vai ao FATT - Festival de Didgeridoo sabe bem o que é estar num festival com picadas que fazem inchar os membros até se tornarem quase inúteis).


Já na entrada do recinto existe um serviço de aluguer de bicicletas à hora ou ao dia, um posto de informação e as bilheteiras. Quanto ao recinto em si é um pequeno mundo. Demorei uns dois dias até me orientar lá dentro. Existem inúmeras lojas e restaurantes com uma variedade incrível. O mesmo se passa com a música que se espalha pelos diferentes palcos, alguns temáticos. Com tanta oferta a todos os níveis, o difícil mesmo é conseguir aproveitar tudo. A certa altura tive a sensação de que estava a usufruir de tudo e ao mesmo tempo não estava a aproveitar nada.

Os preços são ligeiramente elevados, mas a oferta é tão grande que se encontram opções de comida e bebida para todas as carteiras. Se compararmos com outros festivais, os preços são bastante similares, aqui a única diferença é que sendo um festival de grande duração há que planear melhor os gastos. Uma peculiaridade são as máquinas de água (ou "Casas del Agua"). Tratam-se de máquinas espalhadas pelo recinto e pelo campismo onde se colocam 0,50€ e podemos encher o nosso eco-copo (33cl) com água (natural ou com gás) muito fresca. Na entrada do recinto existe uma fonte de água potável gratuita, mas as máquinas acabam por atrair muitos festivaleiros por fornecerem água fresca e bem perto dos palcos.


O Rototom Sunsplash é sem dúvida o melhor festival a que já fui, e acreditem que já fui a muitos (inclusivamente alguns em Espanha). No Rototom vivemos o melhor de dois mundos: a organização de um festival de grande dimensão (tal e qual um festival mainstream) e o espírito "roots" de um festival alternativo. Ali existem todas as condições, mas em momento algum vemos uma marca corporativa a fazer publicidade, a oferecer brindes, etc. O festival é maioritariamente independente, mas conta com uma organização exímia. Quanto aos festivaleiros são bastante ecléticos, vemos e convivemos com pessoas de vários continentes, de várias cores e de variadíssimas idades (sim, conheci um bebé com dois anos e meio de idade e que era a sua terceira vez no festival!).

A edição deste ano contou com 210.000 participantes de 65 países, de cinco continentes (números da organização). Para celebrar os 25 anos do Rototom estiveram presentes participantes dos vários países da Europa, mas também de países bem distantes como a Nova Zelândia, Japão, Cuba, Etiópia ou Quénia. Conhecemos alguns portugueses, mas estávamos claramente em minoria. Segundo dados da organização, 16.000 espectadores com menos de 13 anos, 5.200 com mais de 65 anos de idade e 4.700 pessoas com algum tipo de incapacidade participaram nesta edição do Rototom Sunsplash. Fiquei ainda com a ideia de que a média de idades era bastante superior ao que esperava, com uma maioria de festivaleiros com aparência entre os 30 e 40 anos.


Ficou também a sensação que no Rototom tudo flui, num local com tantas pessoas nunca fiquei mais de cinco minutos numa fila, quer fosse para entrar no recinto, para comer ou para ir à casa-de-banho. É ainda de louvar a forte preocupação ecológica e social deste festival, desde o uso do eco-copo, aos pontos de reciclagem e à parceria com ONG's (como a Proactiva Open Arms que tem como missão o resgate de refugiados no mar). Estar no recinto do Rototom é respirar música, cultura, diversidade e amor.





Texto e fotografias: Sofia Robert

Mais fotografias do festival: https://www.facebook.com/soumusicapt
Instagram: @soumusicapt

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