Música para os meus ouvidos

[Parte III]

Todos os anos o cartaz do Rototom Sunsplash é divulgado e todos os anos é música para os meus ouvidos. Este ano foi-o literalmente.

Claro que invariavelmente alguns nomes ficaram de fora, nomes que gostaria de ver como um Damian ou um Ziggy Marley. Mas o cartaz do Rototom roça a perfeição ano após ano e a oportunidade de participar na edição deste ano, sobretudo indo como imprensa, faz-me ainda hoje sentir abençoada (e as saudades já batem...).


Há música em todo o lado. Há música em todos os cantos do recinto, há música no campismo, há música na praia, tudo é música (como eu). Quando se entra no recinto encontramos logo o Lion Stage do lado direito, na noite que chegámos tocavam os EarthKry (que entrevistei no MUSA). Mas há actuações musicais nos mais variadíssimos recantos do recinto, como é o caso do Roots Yard, na zona de artesanato e comidas.

Não só é necessário um mapa para não nos perdermos no recinto, como é necessário um programa com todas as actividades e actuações para, de preferência durante a tarde, traçar um plano. Sim, estamos no festival para relaxar, mas se não quiserem ficar com aquela sensação de estar a aproveitar tudo e nada ao mesmo tempo há que planear um pouco. Existe muita coisa, muita coisa mesmo, a acontecer em simultâneo e há escolhas que é preciso fazer.

Confesso que as nossas atenções se debruçaram maioritariamente no Main Stage (curiosamente um palco bem mais pequeno do que esperava e sem ecrãs laterais) e na Dub Academy, seguidas do Lion Stage e do Dance Hall. Onde o Rototom marca claramente a diferença é nas colaborações e actuações únicas que ali se podem presenciar. O cartaz é de luxo, mas o mais especial é assistir a concertos que não se vão repetir, provavelmente nunca mais. O Rototom Sunsplash posiciona-se de momento como o maior festival de reggae do mundo e os artistas têm claramente isso em mente.


Precisava de muitas linhas para vos falar de tudo aquilo que presenciei nas sete noites de festival. Quem acompanhou o Instagram do soumúsica.pt ao longo desses dias conseguiu ter uma boa ideia de grande parte dos concertos a que assisti (alguns vídeos ainda estão disponíveis na nossa conta, bem como no Facebook). Vou, portanto, focar-me nas actuações que na minha opinião merecem destaque, pela sua qualidade ou originalidade:

Dia 16
Este foi o tal dia em que o cansaço de toda a aventura da viagem se apoderou de nós, pelo que a nossa estadia no recinto foi curta. De qualquer maneira, destaco a jovem Koffee, convidada do artista Cocoa Tea no palco principal. Confesso que esperava um pouco mais do concerto de Cocoa Tea e que  considero que o seu pico foi mesmo o segmento com esta convidada. Koffee é uma jovem artista jamaicana com apenas 18 anos de idade, mas muitos mais em à vontade e talento. Foi apresentada como uma das novas promessas do dance hall e concordo que terá certamente um futuro promissor.

Dia 17
Sly & Robbie foi um dos destaques do segundo dia do festival. Não só pelo concerto da banda em si, mas também pelos convidados de luxo que os acompanharam (Yellowman, Johnny Osbourne e Bitty McLean). Foi um concerto de roots onde fiquei muito feliz por poder voltar a ver ao vivo Yellowman (depois do concerto no palco Positive Vibes do Sudoeste em 2007). Infelizmente, e provavelmente devido aos seus problemas de saúde, Yellowman já não está em plena forma como há dez anos atrás. Ainda se ouviram os clássicos de Jimmy Cliff a fechar o palco principal, ou a voz suave de Mo'Kalamity no Lion Stage. Mas o meu segundo destaque desta noite vai para os portugueses Real Rockers que tomaram conta da Dub Academy, agarrando o público e mostrando o que de melhor se faz em Portugal no que à música toca.

Dia 18
Na noite que começou com o grande concerto de The Skatalites, realço as actuações de Romain Virgo e Tiken Jah Fakoly. Romain Virgo é apresentado como um cantor romântico e confesso-vos que antes de o ver ao vivo (no MUSA, em 2015) não me despertava grande interesse. Mas o talento e energia deste artista de 28 anos deixaram-me absolutamente rendida das duas vezes. Romain Virgo tem uma voz de outro mundo e consegue agarrar o público como ninguém. Sempre que entra em palco é inevitável que no final do concerto eu pense "foi o melhor concerto até agora". Quem não fica muito atrás é Tiken Jah Fakoly que se seguiu no Main Stage. O artista da Costa do Marfim partilha igualmente uma voz extraordinária e um talento e energia incríveis. A noite terminou para nós com Pow Pow Movement no Dance Hall.

Dia 19
O primeiro destaque do dia 19 vai para o concerto de Biga Ranx ft Atili no Lion Stage, que infelizmente não consegui ver por inteiro. Com Atili nos pratos, Biga Ranx brilhou com a sua voz poderosa nos refrões e fast rap nos versos. Destaque ainda para o concerto de Kabaka Pyramid no palco principal. Mas a estrela da noite vai para a segunda actuação portuguesa no Rototom: Jah Version & Zacky. A dupla deixou-nos, à semelhança dos Real Rockers no dia 17, muito orgulhosos pela representação nacional. O público estava rendido na segunda parte desta actuação que contou ainda com a participação de Mr. Marley e Nina R.A.E.. Inesquecível.

Dia 20
Este foi sem dúvida o dia que atraiu mais pessoas. O recinto aparentava ter o dobro de espectadores que nas noite anteriores. Não será muito difícil perceber que tal facto se deveu aos dois senhores da noite: Protoje e Alborosie. Protoje deu um excelente concerto que assentou que nem uma luva como abertura para o rei da noite. Alborosie era um dos concertos que mais ansiava por ver nesta edição. Com álbum novo, apresentou-se com a sua banda (Shengen Clan), bem como membros dos The Wailers e convidados como Duane Stephenson. O concerto foi absolutamente incrível, dividido em algumas partes um pouco distintas: hits, Duane Stephenson sozinho com a banda, live dub e aparições finais de Kabaka Pyramid e Protoje; e ainda com direito a Alborosie a 'solar' na guitarra. Um concerto que ficará certamente na memória de todos por muito tempo.

Dia 21
Quem me conhece pessoalmente sabe da minha paixão pelos gémeos. Sim, os Mellow Mood. Gostava obviamente de destacar a sua actuação, e de forma parcial faria-o. Mas tentarei ser imparcial.  O concerto desta tour dos Mellow Mood é sólido e muito bom, mas é curto. No MUSA pensei que a sua duração se devesse ao cartaz e à imposição da organização, mas no Rototom foi exactamente igual. Esperava um concerto maior e talvez com algo ligeiramente diferente. Seguiram-se os Fat Freddy's Drop, mas infelizmente vi apenas o início. Escolhas impuseram-se e não resisti em ir à Dub Academy ver Alborosie. Importa aqui frisar que o Rototom me deu algo: foi aqui que aprendi a gostar de dub. É verdade, não era um estilo que me cativasse muito, acho que não o percebia. Mas por esta altura, e depois das actuações nacionais, já estava 100% "into dub". Alborosie meets King Jammy foi uma actuação muito boa. A Dub Academy encheu mais do que qualquer outro dia, todos queriam ouvir (e ver) Alborosie a fazer a sua magia ao vivo. A segunda parte contou apenas com King Jammy que manteve a energia e os ânimos da plateia.

Dia 22
Assim como esta história dividida em três partes, o Rototom guardou o melhor para o fim. E por melhor entenda-se o extraordinário, o incrível Tarrus Riley. Desculpem o exagero mas fiz 2.000km no total e este era o nome que mais aguardava (ao lado de Alborosie). O concerto no Sumol Summer Fest em 2013 encheu-me as medidas, mas deixou-me a sonhar por mais durante cinco anos. Foram cinco anos a aguardar que regressasse a Portugal, ao mesmo tempo que via por onde passava na tentativa de apanhar um avião. E com tanta ansiedade impunha-se um risco, o de ficar aquém das expectativas. Mas estamos a falar de Tarrus Riley, e assim como este festival, foi tudo o que sonhei ao longo dos anos e um bocadinho mais. Tarrus Riley é dono de uma voz e de uma presença absolutamente incríveis e, acompanhado da sua extraordinária banda (Black Soil Band) e do saxofonista mais conhecido da Jamaica, Dean Fraser, deram aquele que para mim foi o concerto do festival. Mas sim, admito que posso estar a ser bastante parcial. De qualquer forma é inegável que foi um grande concerto, com Tarrus Riley a passar por todos os seus hits, a apresentar um tema em estreia absoluta mundial e a terminar com a participação de Konshens (que tinha actuado imediatamente antes) para os temas em conjunto "Good girl gone bad" e "Simple Blessings".


O Rototom Sunsplash regressa no próximo ano nas mesmas datas (de 16 a 22 de Agosto) e eu já estou a contar os dias!



Texto e fotografias: Sofia Robert

Mais fotografias do festival: https://www.facebook.com/soumusicapt
Instagram: @soumusicapt

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