A primeira noite de Rototom ou como acabámos a dormir em frente a uma Euromaster entre duas casas de alterne

[Parte I]

Saímos de Portugal, mais propriamente da zona de Loures, com meio dia de atraso. A segunda mudança dificilmente entrava, mas tirando isso, a carrinha parecia estar do nosso lado. As janelas iam abertas, numa tentativa de substituir a falta de ar condicionado, a música soava pelas colunas, apesar das falhas do cabo, e o sentimento que prevalecia era o entusiasmo. Esperei mais de dez anos para ir ao Rototom e finalmente o dia da partida tinha chegado.

Eram 4h (hora local) quando já nos encontrávamos na via rápida que passa por Madrid e ouvimos um som vindo da traseira. Por coincidência estávamos a passar por uma das muitas áreas de serviço que se encontram por essa estrada. Entrámos, encostámos junto de umas autocaravanas e o pior confirmava-se: o pneu traseiro do lado direito tinha rebentado. O céu estrelado e as lanternas deram a luz, o macaco e os braços a força. De pneu substituído e cansaço já a manifestar-se continuámos mais duas horas até pararmos para descansar.

Mais descansados e animados seguimos viagem. Eram 13h e os estômagos ainda não tinham recebido nenhuma forma de almoço quando de novo na via rápida, agora com mais carros a partilha-la, a carrinha dá uma guinada e o mesmo barulho surge, mas desta vez mais forte e do lado oposto. Encostámos de imediato na berma. O estado do pneu deixou-nos perplexos e a falta de um novo pneu suplente em pânico. Activar o seguro em Espanha e em pleno feriado de dia 15 de Agosto era algo que sabíamos à partida que não ia correr bem.


Esperámos quase uma hora pelo reboque e pelas notícias que não queríamos ouvir: estávamos a apenas 200km do festival, mas nenhuma casa de pneus estava aberta no raio que o seguro deixava que nos transportassem, por isso teríamos de dormir à porta de uma e esperar pela manhã seguinte. O cansaço e a frustração tomaram conta de nós. Percorremos 4km e fomos "abandonados" à porta da Euromaster algures em Cuenca. Eu não vos tinha dito que ia ser uma aventura?

Passámos a noite à porta da oficina, dentro da carrinha, perto de um café/restaurante que nos foi muito útil e duas casas de alterne. De um lado uma casa cor-de-rosa chamada Playboys, de outro uma casa com luzes néon de ar duvidoso. A cereja no topo do bolo foi a forte tempestade que durou quase toda a noite. Relâmpagos que iluminavam o interior da carrinha como se fosse de dia, seguidos de rugidos temerosos (sim, tenho medo de trovoada). Além dos trovões, uma chuva torrencial ensopou o meu colchão, tenda e as nossas bicicletas presos no tejadilho. Repeti duas coisas até adormecer: depois disto já não pode acontecer mais nada e vais ter uma história bem caricata para contar.


A vantagem de pernoitar à frente de uma casa de pneus é que nos permite ser os primeiros clientes do dia. Trocámos os dois pneus traseiros e suspirámos de alívio. Estávamos mais de um dia atrasados, mas íamos chegar a tempo da primeira noite do festival...



Texto e fotografias: Sofia Robert

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