"Somos todos música" no MUSA Cascais

Quando sentes o vento na pele, o cheiro da água salgada, ouves o som do contratempo e olhas para cada sorriso que te rodeia, sabes que estás no MUSA. O trabalho, os exames ou a fadiga não passam a segurança da entrada, e o corpo e mente entregam-se ao que de melhor há na vida: a música. Nós mudámos. O MUSA felizmente não.

Em tempos de mudança posso acrescentar mais uma e começar pelo fim. Começar pelo pedido de desculpas. Afinal o MUSA foi há mais de uma semana e no mundo digital actual isso equivale a um mês. Porém, aparecemos-vos de cara lavada e roupa nova. Mudámos o nosso logotipo e o nosso blog e acrescentámos um elemento à nossa equipa.

Mas este artigo não é sobre nós. Este ano, e dado este pequeno atraso, optei por outra mudança e em vez de vos relatar o que se passou em cima do palco, que todos viram ao vivo ou por streaming, concentrei-me apenas naquilo que só eu e o meu gravador vos podem contar.

As entrevistas no ambiente de festival são mais desafiantes. Os artistas estão cansados, há outros jornalistas à espera, o som vindo do palco atrapalha e o tempo é limitado. No entanto, com a boa vontade da organização e a disponibilidade de cada protagonista consegui fazer quase todas as perguntas que queria e entrevistar todos os artistas do cartaz do palco principal, menos o último de cada noite.

Eis as entrevistas “flash” do soumúsica.pt no MUSA Cascais:


Dente de Leão

Acho que se pode dizer que são ainda uma banda relativamente recente, como surgiu este projecto? Qual é o vosso background? Sei que vêm de outros projectos.

Nós já somos amigos há uma data de anos e encontrámo-nos todos na praia, na Poça, casualmente, estávamos a dar um mergulho e começámos a falar que tínhamos de fazer uma banda nova de reggae para activar o movimento outra vez e cá estamos (risos). Há pessoal que vem do punk, do ska, mas toda a gente sempre ouviu reggae e depois há essa união, de sermos todos amigos da mesma zona. Somos amigos há mais de vinte anos e o Cristiano tinha umas ideias para umas letras, tínhamos ideias para umas músicas, juntámos tudo e está aí o projecto.

Sendo vocês ali do Estoril, como é tocar tão perto de casa e num festival da dimensão e importância do MUSA?

Somos de São Pedro do Estoril e é muito fixe. É pena é ser às 17h30 (risos). É bom porque muitos de nós já tocámos neste festival com outros projectos, alguns há dezanove ou vinte anos e é fixe ver a evolução do pessoal e é um projecto muito interessante. É um festival versátil e é muito bom para nós tocar no MUSA, ainda por cima na vigésima edição.

Como tem sido a aceitação do vosso álbum?

Isto está tudo muito no princípio, mas o feedback tem sido muito bom. É óbvio que não temos nenhuma editora por trás a divulgar, tem sido só pelos nossos meios e pelos meios que há hoje em dia na Internet. Este é o nosso sexto concerto. Por isso é um projecto que ainda estamos a começar, e foi uma grande honra estarmos aqui e termos sido convidados para abrir o festival. E o disco tem tido uma grande aceitação, vai sair um videoclip agora em Agosto e vamos continuar a fazer coisas, principalmente a tocar.

Muitos artistas optam por cantar em inglês, vocês optaram pelo português por acharem que a vossa mensagem chegaria mais facilmente?

Cristiano (vocalista) – Eu faço as letras em português porque me quero fazer entender. Estou em Portugal por isso canto em português. É mais fácil cantar em inglês e também gosto de o fazer, mas acho que tenho de cantar em português. Para os meus filhos ouvirem e entenderem bem e para quem não sabe inglês.

Sobre a vossa música “Escândalo” vocês referem na vossa página que esta vem a propósito de “estes escândalos todos que estão a acontecer no nosso Portugal dos pequeninos. Corrupção, fraudes, políticas... Tudo farinha do mesmo saco”, quando criaram o tema tinham algum escândalo particular em mente ou só depois da música estar completa é que se deram conta que poderia servir para vários casos?

Cristiano – São tantos, mas vou dizer, na altura eu pensei no Salgado. Com aquele império todo, uma capela dentro de casa, um filantropo. Mas infelizmente a música encaixa em vários casos.

E agora, projectos futuros?

Agora é tocar. Tocar o máximo possível, conhecer o máximo de pessoal, dar-nos a conhecer, fazer o que gostamos. E para o ano outro disco. Apesar de ter saído agora este, já há outro disco na calha.


EarthKry

É a vossa primeira vez em Portugal, como se sentem?

É óptimo, é uma sensação óptima, boas vibrações, óptimas pessoas aqui. A comida, a cultura, gostamos muito.

Conseguiram visitar um pouco?

Sim sim, passeámos na praia e comemos, mas vamos ter de ir embora hoje.

Ainda estão a promover o álbum “Survival”, como tem corrido?

É o nosso álbum de estreia e por enquanto tem corrido bem, continuamos a promovê-lo.

Já estão a pensar no próximo?

Sim, vamos começar a gravar assim que regressarmos a casa.

E como foi andar na estrada com os Katchafire?

Foi óptimo, uma óptima vibe e diferentes estilos de música. Porque além deles e de nós, era também o E.N. Young, por isso era uma boa mistura de reggae de três locais diferentes: Nova Zelândia, Jamaica e EUA. Gostámos muito.

Estão a fazer uma tournée mundial, estão a gostar?

Sim, fizemos 21 concertos nos EUA em Junho, e temos agora mais uns concertos aqui antes de regressarmos à Jamaica. Estamos em promoção non-stop e a levar o reggae roots, é o nosso foco principal.

E qual é a mensagem principal que querem passar com a vossa música?

Earthkry significa o choro das pessoas da Terra e nós vimos todos de contextos similares, por isso as nossas músicas contam não só as nossas histórias como as histórias das pessoas que nos rodeiam, como é o caso do tema “9 to 5”. Por isso, a nossa mensagem é a nossa experiência de vida e se vimos, por exemplo, a Portugal e vemos uma situação que nos influencia ou inspira, escrevemos sobre ela. É sempre para as pessoas.

Têm uma mensagem para os vossos fãs portugueses?

Mantenham-se positivos. Continuem a apoiar a boa música reggae e o amor é a chave. Mantenham a energia do roots rock reggae viva.


Tribal Seeds

Antes da primeira pergunta e após as apresentações iniciais, explicámos que soumúsica.pt significa "I am music". A banda disse: "Oh you're music, we're music..." Ao qual eu respondi: "Everyone is music" - somos todos música (risos).

É a vossa primeira vez a actuar na Europa, como se sentem? E por que é que demoraram tanto tempo?

Há anos que queremos vir, mas às vezes é necessária a combinação certa de promotores, managers e timing, mas finalmente conseguimos. Esperamos voltar todos os anos.

Planeiam visitar Portugal ou vieram só para o concerto?

Na verdade, temos dois dias de folga por isso planeamos aproveitá-los bem. Vamos ver alguns pontos turísticos, e gostávamos muito de ver um jogo de futebol, mas infelizmente não vai haver nenhum nestes dias.

Estão a promover o “Roots Party”, como tem corrido? Têm tido bom feedback?

Sim, sem dúvida, o “Roots Party” tem corrido bem. O EP saiu e agora estamos a trabalhar no longa-duração, mas sem apressar nada. Quando estiver pronto vamos lançar um CD para também poder promove-lo aqui na Europa para as massas.

Estão a gostar deste festival?

Sem dúvida, a vibe é espectacular.

Actualmente em Portugal este é o único festival de reggae. Como tem sido nos EUA, o reggae mantém uma boa legião de fãs?

Acredito que há agora um renascimento. Perdeu-se um pouco em San Diego e no resto do país, mas tem surgido um novo estilo de reggae inspirado na velha e nova escolas e nós fazemos parte desse movimento. Estamos aqui para continuar a criar ‘vibes’ e inspirar as próximas gerações.

Têm uma mensagem para os vossos fãs portugueses?

Queremos voltar e queremos agradecer por nos terem recebido. Em nome dos Tribal Seeds e de toda a gente da banda e da nossa equipa: obrigada.


Bezegol

Como te sentes a tocar aqui na 20ª edição do MUSA?

É porreiro, é a 20ª edição do MUSA, é o 11º ano desde o meu primeiro álbum. É bom porque consigo vir cá já com alguma bagagem, consegui trazer faixas dos álbuns todos, conseguimos trazer uns bons dubs, a banda tem ficado muito mais sólida e projectamos de melhor maneira o som que fazemos para o público. O concerto foi óptimo, a organização tem-nos tratado super bem e só tenho a agradecer o convite e espero que o MUSA dure muitos anos e que daqui a uns anos possa cá vir outra vez (risos).

Apesar de estarmos aqui num festival maioritariamente de reggae sei que não gostas de encaixar a tua música numa gaveta quanto ao estilo e numa entrevista ao Expresso dizias que não gostas de impingir a tua música ao público nem fazer música consoante aquilo que “está a bater no momento”. Achas que essa verdade com que trabalhas é a chave do teu sucesso e de teres uma carreira longa?

Não sei, nem sei até que ponto se pode chamar sucesso. Eu sou muito grato pelas pessoas que fazem alguma força para que nós possamos tocar nos sítios. Porque nós não vivemos de publicidade, não somos uma banda que toque na rádio, não aparecemos na televisão. Somos convidados claro, mas esta é uma forma de estar. Daí vem a questão dos rótulos, se nos deixamos rotular, automaticamente estamos a deixar que nos encaixem em algum sistema que já existe e eu sempre fui contra os sistemas porque a música é uma forma de arte e deve ser feita sem barreiras, sem restrições. Ligamos a televisão e vemos sempre as mesmas coisas. Então, eu nunca acreditei que se tem de combater os sistemas estando dentro deles. E é nesse sentido que eu gosto de não ter um rótulo, quem gosta de nos ouvir que ouça e quem não gosta também não é obrigado a isso. Porque eu pessoalmente também não gosto de ligar a rádio e estar sempre a ouvir as mesmas coisas e deixar de ouvir rádio porque estão entregues aos contratos que há com as editoras. Isso acaba por nos matar culturalmente como país e a nossa identidade está em grande parte na música que nós transmitimos. E eu gosto que as pessoas sintam que a minha sonoridade é portuguesa, que é feita cá e que a fazemos da melhor maneira que sabemos. E estou muito agradecido ao público porque nos tem percebido e acompanhado e também ao público deste festival por causa desta noite. E ao MUSA por nos convidar, claro.

Achas que o facto de não teres uma “major label” por trás permite-te ter mais liberdade criativa?

Isso tenho a certeza que tenho. Há quem diga que se calhar não se tem tanto dinheiro, não sei. A minha missão também nunca foi ser rico por causa da música que fazia. Por isso eu só tenho mesmo de ser grato por continuar a ter palcos para tocar e por ter convites e tocarmos no país inteiro porque o público aparece e canta connosco e isso nem sei bem qual é a fórmula para ter acontecido, mas aconteceu.

Tens colaborado com outros artistas, como têm surgido essas colaborações?

A maior parte das coisas surge naturalmente. Ou porque estamos em estúdio e aparece alguém, como foi o caso do (Rui) Veloso, ele passou porque o estúdio é dele e daí sai um jantar, sai uma conversa. Há várias maneiras dessas coisas acontecerem. Agora fiz um tema com o Deau recentemente, trabalhei com o Mundo (Segundo) também, são áreas diferentes. Mesmo em termos da banda, os músicos que a integram não são de nenhum género específico e temos trabalhado para tentar chegar ao máximo de gente possível através do som.


Luciano

Como te sentes por estar no MUSA?

Sinto-me óptimo, a atmosfera é boa e sempre que canto tenho um bom ambiente. E esta brisa que vem do mar, lindo. E o público, a recepção: “excelente” (disse em português macarrónico).

Com uma carreira de 25 anos, o que aprendeste com a música durante este tempo, enquanto levas a tua mensagem e músicas às pessoas?

Uma coisa que sei e que me apercebi é que o meio corporativo não está muito inclinado para a ideia de manter as pessoas educadas e inspiradas. Percebi que a maioria das pessoas do mundo corporativo preocupam-se apenas em fazer dinheiro, poderia dizer alguns nomes, mas não o vou fazer agora, de qualquer forma eles sabem quem são. Gastam imenso dinheiro em pessoas que cantam sobre lixo, todo o tipo de porcaria, e lutam contra aqueles que cantam e tentam elevar o espírito das pessoas. Mas temos de ser sábios e saber que esta música é uma música que luta pela liberdade.

De alguém que é apelidado de ‘The Messenger’ (o messangeiro), qual é na tua opinião a mensagem mais importante a reter nos tempos que correm?

Neste momento acho que a mensagem mais importante que temos de saber, especialmente os líderes mundiais, é que se estão a matar a tentar conquistar o mundo e lutar por poder. O Homem pode ter muito dinheiro e muitas coisas, mas no fim isso não vale de nada aos olhos de Jah. Têm gasto fortunas em armas de destruição maciça e se não tivermos cuidado, uma terceira guerra mundial pode começar e com efeitos bem mais devastadores devido a estas armas, é assustador. Com as armas nucleares uma pessoa pode carregar num botão e uma cidade desaparece. Por isso tentamos enviar boas mensagens às pessoas e tentar ‘acordá-las’.

Tens tantos álbuns editados, como se encontra inspiração para escrever tantos temas?

É isso, quando vês tanta coisa a acontecer no mundo, há tanta coisa sobre a qual podes cantar. A inspiração vem da vida e de Jah todo-poderoso.


Plantada

O vosso projecto é relativamente recente. Formaram-se em 2016 com outro nome e outra formação. Contem-me um pouco como surgem os Plantada.

Sim, é um projecto ainda muito novo, temos oficialmente um ano, mas a formação actual é muito mais nova ainda. No entanto, a história começou no Adamastor (em Lisboa). Começámos uma primeira banda que tocava reggae com shot, chamávamos de reggae ‘shoteado’, que é uma mistura do ritmo brasileiro com o forró e aí depois a gente decidiu montar um som reggae para passar as nossas mensagens.

Já contam com um EP editado, “Semente Plantada”, como tem corrido a aceitação por parte do público?

Sim, nos nossos concertos reparamos que muita gente já conhece as nossas músicas. O EP foi feito de uma maneira muito, digamos, caseira, totalmente independente, sem muitos recursos. E as pessoas estão a aceitar bem e isso para nós é um reflexo de que estão a gostar do que fizemos de uma maneira verdadeira e sem recursos. 

E já estão no Palco MUSA! Como é actuar num festival tão icónico como este?

Isso era um sonho já antigo. Todos nós conhecemos o MUSA, desde sempre, porque gostamos de reggae e é um festival icónico do reggae aqui em Portugal. Muitas vezes estava do outro lado (plateia) e nunca esperei um dia estar no palco, por isso sinto uma grande felicidade de poder transmitir a nossa mensagem para o pessoal.

Se tivessem de resumir qual a mensagem que procuram transmitir através da vossa música o que diriam?

É meio complicado porque a nossa banda é muito eclética por isso temos muitas mensagens, mas o mais importante mesmo é a essência do reggae, sempre. Partilhar mesmo o amor e a paz, abrir os olhos das pessoas para o mundo e para si mesmas. Falamos muito também sobre a natureza, é claro, sobre o respeito também. Porque o amor, se você tem pela natureza, você tem pelo seu próximo. Até mesmo o nosso nome, remete para a natureza.


Freddy Locks

Como é voltar mais uma vez ao MUSA e saber que a tua presença é sempre tão importante neste festival?

É muito bom. Tenho uma ligação mesmo muito grande com o festival. Também moro aqui perto e eu conheço imensa gente da associação que organiza este festival há muitos anos. E sinto que o festival também cresceu comigo, ao mesmo tempo. Vim cá em 2001 com uma banda que tinha com amigos, depois vim outra vez em 2005 e depois disso acho que já vim mais três vezes, acho que no total foram cinco. E para mim é muito bom, é sempre uma maravilha. Adoro e é muito importante para mim.

Estás quase a lançar um disco novo, “Overstand”, em Outubro. Já saíram dois singles, mas o que podes adiantar mais sobre este novo trabalho? O que é que o público pode esperar?

Acho que quem gosta da minha música vai adorar o disco. Está muito, muito positivo. Eu tive uma fase da minha vida pessoal difícil e por isso estive seis anos sem ter um disco novo. E este disco é a superação, por isso é que se chama “Overstand” que não é só compreender as coisas, mas conseguir ultrapassar as coisas que nos surgem no caminho. Então, este disco está muito positivo. E a nível de som eu fiz uma coisa que nunca tinha feito antes que foi gravar num estúdio, misturar noutro e depois mandei masterizar no Canadá por um nome muito grande do reggae mundial que é o Dubmatix e ficou com um óptimo som. Por isso acho que quem gosta da minha música vai adorar o CD, tenho a certeza.

Com uma carreira já tão longa e sólida, o que é que aprendeste ao longo destes anos através da música?

Eu sou uma pessoa super tímida e eu faço música para sobreviver mentalmente, são mesmo desabafos. E depois vou tendo cada vez mais feedback das pessoas que é o objectivo máximo da minha música: tentar ajudar as pessoas para que não se sintam tão sozinhas, tentar unir as pessoas em torno de causas boas para nós todos. E é sempre um trabalho contínuo, já passaram uns 14 ou 15 anos desde que toco como Freddy Locks. E cada vez vamos aprimorando mais, as coisas técnicas e musicais, tentado melhorar sempre um bocadinho e aprender algo mais. Há sempre caminho para aprender.

No outro dia no Facebook li uma troca de comentários entre dois rapazes sobre o cartaz deste festival. E a certa altura tu intervieste e dizias “quando fizer uma parceria com o Damian Marley serei um ‘artista’ de ‘nível’ para mais pessoas”. Sei que estavas meio a brincar e a conversa era positiva, mas consideras que ainda há alguma espécie de desprezo pelos artistas nacionais ou já não tanto?

Eu gostava de dizer que não mas tenho de ser honesto, eu gosto do MUSA e adoro estar cá e estou muito feliz, mas a verdade é que esperava que com os anos que eu tenho disto e com o meu quinto disco esperava tocar mais tarde, ter mais tempo para actuar. Tive 45 minutos, esticámos um bocadinho e gostava de ter tocado, por exemplo, como o Bezegol tocou ontem, a uma hora com mais pessoas e com mais tempo para tocar. Daí eu ter dito essa piada no Facebook. Eu sei que cá em Portugal há pessoas que adoram e respeitam muito o meu trabalho, mas a esmagadora maioria parece que nunca me vê. Dá-me ideia que se eu um dia tiver sucesso lá fora eles vão todos dizer que sempre me adoraram. Não é só comigo, é um problema geral. Ou és gigantesco e tens uma máquina de marketing gigantesca e passas em todas as rádios ao mesmo tempo, ou por mais que sejas bom, o português tem um bocado tendência para não dar valor àquilo que está em casa dele. Não culpo ninguém mas tenho de dizer que sinto um bocadinho isso.


Christopher Martin

Como te sentes por estar em Portugal e no festival MUSA?

É a minha primeira vez neste festival. Já tinha estado uma vez em Portugal para actuar, mas no Porto. Adoro Portugal, adoro a ‘vibe’ que me dão e a energia. O MUSA foi maravilhoso, óptimas pessoas, ‘vibes’, energia, tudo.

Qual é a coisa mais importante que achas que a música te deu nestes últimos anos, desde 2005 quando ganhaste o concurso de talentos Digicel Rising Stars?

Diria que a coisa mais importante que a música me deu foi a oportunidade de ir a diferentes sítios no mundo e ver novas caras. Não temos de trabalhar nenhum dia da nossa vida porque fazemos o que amamos (risos). E podemos viajar e ver novas pessoas e partilhar a nossa música e talento a diferentes pessoas de diferentes raças.

Nessa altura, depois de teres ganho o concurso televisivo, pensavas que a tua carreira ia ter tanto sucesso?

Nunca pensei sobre isso. Apenas adoro cantar e adoro música. E o trabalho árduo foi o que me trouxe até aqui, não diria que estou surpreendido, mas sinto-me abençoado e feliz.

Tens algumas colaborações com outros artistas, é importante para ti trabalhar com outros músicos?

Claro que sim, é muito importante. É muito importante trabalhar com outros músicos, sejam artistas como cantores, ou músicos como produtores ou instrumentistas. É sempre bom mudar, juntar energias diferentes de várias pessoas. As pessoas interpretam a música de diferentes maneiras e por isso é bom ter diferentes influências.

Qual é a mensagem mais importante que queres passar com a tua música?

A mensagem mais importante que gosto de passar através da minha música para as pessoas diria que é para serem como são. E para que sejam verdadeiras com a música. Eu canto sobre amor porque sou assim. E quando não canto sobre amor, canto sobre boas energias e bons momentos. É esse o objectivo da nossa música, despertar consciências, dar boas ‘vibes’, amor, energia e vibrações positivas.


Mellow Mood

Como é estar de volta ao MUSA?

É óptimo. A única coisa que podemos dizer é que é óptimo.

Podem-me falar um pouco do videoclip que lançaram há dois dias?

Foi filmado parcialmente em Lisboa, também em Kingston e Londres. Queríamos o máximo de pessoas possível a trabalhar neste vídeo. Temos onze dançarinos e temos vários sistemas de som. São vários amigos nossos, temos por exemplo o Zacky Man (Supa Squad) no vídeo. Foi óptimo trabalhar com um grupo de amigos e pessoas com quem queríamos trabalhar e só podemos dizer para passarem no YouTube e verem o vídeo.

Como tem corrido a promoção do novo álbum, “Large”? Têm tido bom feedback?

Tem corrido bem, o feedback tem sido muito bom. Estamos agora na nossa tournée de verão, estamos a começa-la.

No vosso site dizem que “o tema principal da música ‘Large’ é uma crítica à economia de mercado actual” que nos leva a produzir e consumir cada vez mais. O que acham que tem de mudar para as pessoas viverem uma vida mais equilibrada?

Eu acho que tem de haver uma mudança não para viver uma vida mais equilibrada, mas simplesmente para viver, senão vamos morrer. Devíamos definitivamente ponderar e pensar seriamente em relação ao nosso estilo de vida. Eu acho que hoje em dia a maioria da música que é mais tocada nas rádios, e é essa que os jovens mais ouvem, promove uma mensagem de forte consumismo. Por isso é que quisemos erguer uma voz que diga algo diferente, que dê uma alternativa para os jovens ouvirem.

Vocês usam muito as redes sociais para falar com os fãs. Mas acham que as redes sociais podem ser vistas como um problema na sociedade actual?

Tudo pode ser um problema se não for usado de uma boa forma. As redes sociais podem ser uma grande prisão se forem usadas dessa forma, depende.

O vosso vídeo do tema “Dance inna Babylon” chegou aos 50 milhões de visualizações no YouTube. Vocês escreveram no Facebook que essa música significa muito para vocês, porquê? E como se sentem ao saber que o vídeo foi visto 50 milhões de vezes?

É óptimo. Digamos que esse foi o nosso primeiro hit a nível global e por isso, até hoje é ainda importante para nós. Graças a essa música tocámos na América Latina, EUA, Europa,... Foi mesmo o nosso início e ainda hoje não sei como tem corrido tudo tão bem


Don Carlos

Como é voltar ao nosso país?

É sempre óptimo, é sempre maravilhoso estar rodeado de pessoas amáveis.

Com uma carreira com tantos sucessos, qual é o segredo para fazer um grande hit?

As pessoas dão-me inspiração. Inspiro-me na vida do dia-a-dia e em Jah.

São mais de 45 anos de carreira, que conselhos darias a um artista que está a começar agora?

Diria para fazer sempre o seu melhor. Para fazer sempre tudo vindo do coração e para ter sempre uma mensagem positiva pois é isso que precisamos na música, positivismo.

É essa a mensagem que passas com a música?

Sim, positivismo para todos pois gostava que todos vivêssemos como um só. E assim este mundo seria um só, unido, e seria um lugar muito melhor e mais feliz para vivermos.

Durante estes 45 anos o que achas que mudou no reggae?

Definitivamente as letras das músicas, e alguns ritmos também mudaram. Há muito poucos artistas novos a falar de coisas positivas, a maioria fala sobre coisas materiais, mulheres e ‘bling bling’. Tem sido assim nos últimos anos, mas eu sei que vai mudar.


O soumúsica.pt deseja um feliz aniversário ao festival MUSA e espera pelas próximas 20 edições. Um agradecimento especial à Inês Pimenta que nos acolhe sempre tão bem e que tudo faz para garantir que possamos fazer o melhor trabalho possível.

Espero que gostem da nossa nova imagem e desejamos as boas vindas ao Roberto, o novo elemento da equipa soumúsica.pt



Texto: Sofia Robert

Fotografias: Luís Carvalho e Roberto Carvalho

Instagram: @soumusicapt

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