A viagem de Ben Howard

Quando cheguei à Rua Portas de Santo Antão, a fila de pessoas ia em direcção ao Teatro Politeama e continuava por largos metros.

A sala ia enchendo, os mais jovens e devotos corriam para a plateia, os calculistas testavam a visibilidade a partir de várias bancadas e cadeiras do balcão até se decidirem. O palco estava repleto de instrumentos, amplificadores, monitores, luzes e outros apetrechos, muito diferente da única vez que vi Ben Howard ao vivo, mas já lá vamos.


O FUSION Arts Festival começou com The Dead Tongues. Ryan Gustafson, cantor, compositor, intérprete e produtor, responsável pelo projecto, apresentou-se sozinho, acompanhado de uma guitarra, harmónica e um pedal que usou para o ritmo. Não sou muito apologista de comparações entre artistas, por acreditar na individualidade de cada um, mas é inevitável recorrer a elas quando falamos de artistas menos conhecidos do grande público. A harmónica, e muitas partes instrumentais, remetiam para Bruce Springsteen, a voz para o estilo country. O público mostrou-se efusivo, apesar do habitual burburinho nas primeiras partes de concertos.

No intervalo, ouvia atrás de mim uma competição entre amigos que discutiam quem conhecia Ben Howard há mais tempo. Fosse eu intrometida e teria ganho a disputa. A minha história de amor musical com Ben Howard começou em 2010, e como todas as boas histórias de amor foi inesperada. O artista abria para uma Aula Magna desejosa de ver Xavier Rudd e conquistou a plateia.

Após um intervalo longo e povoado de assobios, Ben Howard e a sua banda entram em palco. Há oito anos Ben fazia-se acompanhar apenas de India Bourne no violoncelo e na voz. Hoje, India (agora também com carreira a solo) está lá mas a banda que acompanha o músico mais do que triplicou. A primeira parte do concerto foi dedicada a músicas do novo álbum "Noonday Dream", que será lançado apenas esta sexta-feira dia 1 de Junho. O público mostrou-se entusiasmado e receptivo ao longo desta apresentação, apesar de apenas duas músicas deste álbum poderem ser encontradas no YouTube (falo de "A Boat To an Island On the Wall" e "Nica Libres At Dusk" - há ainda "Towing the Line" numa versão ao vivo). Os amigos da competição não concordavam com o entusiasmo: "Será que é agora que o concerto vai ficar bom?".

Foi apenas na nona música que Ben Howard, até então sem falar com o público, interpreta "I Forget Where We Were", tema que deu nome ao álbum anterior lançado em 2014. Tocando logo de seguida "Small Things" também do mesmo álbum. Para desilusão de muitos fãs, o artista revisitou apenas esse trabalho (ainda com os temas "End of the Affair" e "Conrad"), e a música "Promise" do álbum "Every Kingdom", o resto? O resto foi um álbum que os portugueses e o mundo ainda não tiveram acesso.

À saída os comentários que ouvi não foram positivos, do vernáculo à estupefacção ("É que nem a 'Keep Your Head Up'!"), passando pelos "uuh uuh uuh uuh uuh uh", fazendo alusão ao tema "The Wolves". A mim, Ben Howard tem de se esforçar muito mais para desiludir. É um artista consistente e a evolução que apresenta na sua carreira é natural e iguala o seu talento. Sim, este foi um concerto com uma banda maior, luzes e imagens no fundo do palco pensadas para a ambiência pretendida, com uma forte aposta em sons mais eléctricos do que acústicos. E sim, prefiro o Ben Howard intimista, acompanhado da sua guitarra num registo unplugged para uma sala pequena, mas o seu talento é grande o suficiente para o permitir viajar onde pretender. Que continue a viajar sem esquecer de nos contar.

Setlist:
A Boat To an Island On the Wall
Nica Libres At Dusk
All Down the Mines (Interlude)
The Defeat (Live Debut)
Towing the Line
What the Moon Does (Live Debut)
Murmurations
Agatha's Song (Live Debut)
I Forget Where We Were
Small Things
Someone In the Doorway (Live Debut)
There's Your Man (Live Debut)
Encore:
End of the Affair
Promise
Conrad
[Informação retirada do site setlist.fm]



Texto: Sofia Robert


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