segunda-feira, 7 de março de 2016

Lisboa Dance Festival

Ouvimos música electrónica bem alta. Olhamos para o lado e vemos um restaurante. Através do vidro tudo parece normal, as pessoas comem e conversam. Puntz, puntz, puntz. Não, tem de ser aqui. O cartaz à porta indica que é ali a sala BI+CA. Entramos, mostramos a pulseira ao segurança que se encontra entre a porta da cozinha e a escada. Subimos e o som aumenta. Era de lá que vinha a música. A sala é pequena e o calor, emanado dos corpos dançantes, faz-se logo sentir. As pessoas dançam com muito menos roupa daquela que trago vestida. Lá fora estão menos de 10º e a constipação que tinha só foi curada na véspera. Mas tudo começou com as Talks...


O Lisboa Dance Festival viu no passado fim-de-semana a sua primeira edição. A LX Factory foi o espaço escolhido para este festival de música electrónica. O slogan "Music. Talks. Market." cobre a essência deste festival de inverno. A música podia ser ouvida das 17h às 4h, com alguns dos melhores nomes da cena actual, passando depois para o Ministerium Cub, no Terreiro do Paço, para o after hours.

As Talks eram provavelmente o que mais me interessava neste festival, onde infelizmente só conseguimos ir no segundo dia por causa da tal constipação. As Talks, divididas em Talks, Lectures e Masterclasses, encontravam-se na ACT-Escola de Actores, em três salas próximas mas distintas. Eram 16h quando Rui Miguel Abreu sugeriu "vamos improvisar como no jazz" e juntou a Talk e a Lecture sobre Vinil.

Luís Clara Gomes (Moullinex), José Moura, Jorge Caiado e Luís Costa (Magazino) sentaram-se no sofá para uma conversa moderada pelo locutor da Antena 3, Luís Oliveira. Uma hora muito interessante sempre à volta do vinil. Falou-se do vinil como objecto de culto, como instrumento de trabalho, como ganha-pão (ou não) das editoras e lojas independentes, o vinil como "moda" e o vinil como paixão. A experiência de cada um dos convidados, seja como DJ ou como representante de cada editora, contribuiu em muito para esta Talk.

Na sala do lado ouvia-se o scratch de Dj Ride que leccionava a masterclass "Scratch e Produção". Atravessei o corredor para a Lecture "Direitos para Artistas e Editoras" dada por Nuno Saraiva acerca dos direitos de autor e direitos conexos, um tema "muito mais secante do que a Talk anterior" segundo o próprio. Com recurso a slides projectados, foi explicado, de uma forma um pouco mais simplificada, o tema denso dos direitos de autor e da importância da AMAEI na protecção dos direitos dos autores e das editoras independentes.

Estava na altura de ouvir um pouco de música e desloquei-me ao edifício do lado, à sala ZOOT. Slow J é um dos nomes mais falados ultimamente no mundo do hip hop. Na entrevista que fiz no passado mês de Outubro a Sam the Kid e Mundo Segundo, Sam referiu o nome de Slow J como um dos novos nomes a seguir. No sábado percebi porquê. Slow J é João Batista Coelho, MC, compositor e produtor. Acompanhado de Fred Ferreira (Orelha Negra, Banda do Mar, etc.) proporcionaram aquele que para mim, e dos concertos que tive oportunidade de assistir, foi o concerto do festival. Uma actuação simples e condensada que deixou a música transparecer no seu melhor estado, puro. Slow J não é apenas mais um rapper, é um cantor e como comprovado, um nome a seguir no panorama da música nacional.

Seguiram-se Francis Dale e Isaura. Numa versão bem mais complexa que o seu anterior par, deram um concerto consistente onde, se pusermos os pequenos problemas técnicos de lado, brilharam as vozes dos dois cantores.

 
Era noite de derby Sporting - Benfica e como provavelmente tantos outros, fui arrastada para o restaurante mais próximo e fui lá retida nos 105 minutos seguintes. De estômago cheio e felicidade no rosto do nosso fotógrafo (ganhou o Benfica) voltámos ao recinto para espreitar o que tocava nas outras salas. Na BI+CA os clientes jantavam calmamente no andar de baixo ignorando o som da sala de cima que se fazia ouvir bem acima de uma qualquer música de ambiente. Na sala NormaJean o calor emanava pela pequena frecha da janela ao lado das casas de banho.

Voltámos para a nossa sala de eleição, a ZOOT. Desta feita para assistir à apresentação do novo álbum de DJ Ride e convidados. Acompanhado de uma banda, apresentou os temas do novo trabalho "From Scratch" com a ajuda de vários convidados entre eles, Stereossauro, Capicua, Jimmy P, Héber Marques (HMB) e MGDRV.

Depois de uma visita ao Market, onde se encontravam representadas algumas editoras independentes com um papel relevante na música electrónica, passámos na Fábrica XL, a maior sala do festival. A sala é um dos meus espaços favoritos em Lisboa (fui lá a um grande aniversário da Kalimodjo há uns anos atrás) mas pode ser uma armadilha em termos acústicos. A sala foi muito bem aproveitada com o video mapping a ajudar no aspecto visual e uma aposta perfeita para receber os festivaleiros que tenho a certeza serão muitos mais no próximo ano.

Foi tempo de regressar a casa. O frio era muito e o medo da constipação voltar também. Para o ano há mais.



Texto: Sofia Robert


Instagram e Twitter: @soumusicapt 

Sem comentários:

Enviar um comentário