sexta-feira, 14 de agosto de 2015

FATT - 6 a 9/8/2015 (português)

O ano de trabalho custa menos a passar sempre que me lembro que tenho quatro dias no paraíso em Agosto. Já é o meu terceiro ano no FATT (Festival de Didgeridoo) e certamente não será o último. O lugar (Sítio das Fontes), o ambiente, as pessoas, tudo é mágico!
O festival conta com várias actividades, para todos os gostos, durante o dia, e concertos à noite.
O calor é abrasador mas a piscina natural de água fresca ajuda a suportá-lo. A restauração baseia-se sobretudo na cozinha vegetariana. E é de salientar que este é um festival aconselhável para crianças.

O palco, que se encontra virado para um magnífico anfiteatro ao ar livre, abriu na primeira noite com uma Jam Session. Quem quisesse podia subir e demonstrar os seus dotes a todos os presentes.
Tomás Carro seguia-se com o seu didgeridoo e hang.


João Jardim, com os mesmos instrumentos, terminava a noite com a maior parte do público a dançar em frente ao palco.


O segundo dia começou ainda com muitas pessoas a chegar para o fim-de-semana. Os workshops começaram de manhã e estivemos pela aula de djambé. Depois de um excelente almoço vegetariano, passei a tarde no workshop de Introdução à Fitocosmética onde aprendi os passos para começar a preparação de cada produto.
As tardes eram bastante quentes pelo que eram passadas por quase todos os festivaleiros à beira de água ou dentro dela.
A banda sonora é constante no FATT, vão-se formando jam sessions aqui e ali, ouvem-se djambés, didgeridoos ou cânticos.

A calma do final de tarde leva-nos a mais uma noite de concertos. Desta feita Turbodzen, duo vindo da Rússia, abriu a noite. Apenas munidos de uma harpa de boca, cada um, deram um concerto completo que encheu o palco de um grande som apesar do tamanho tão reduzido dos seus instrumentos.


O grupo Transmongolia seguiu-se. Como o próprio nome indica vieram da Mongólia, trajados a rigor, para nos mostrar as sonoridades e os instrumentos do seu país. Um concerto que teve muita adesão e onde acabámos todos a cantar em coro acompanhando os três músicos.


Ab Origine, dupla italiana, fechava a segunda noite do FATT. Com um didgeridoo e vários instrumentos de percussão conseguiram pôr toda a gente a dançar trazendo algumas influências e instrumentos de outros países, mostrando uma sonoridade quase Trance mas em acústico.


O penúltimo dia de FATT nasceu chuvoso, nada que não seja uma bênção para quem tem de dormir numa tenda com o calor que o Sul do nosso país tão bem sabe ter.
O dia como sempre, foi passado por entre actividades, convívio e muita alegria e onde concluí a minha aprendizagem de Fitocosmética. Fizemos um óleo de massagem e um bálsamo labial. Tudo 100% natural, claro.

O Sol pôs-se ao som de Sage, o artista vindo da Rússia, que nos trouxe música experimental. Acompanhado de um didgeridoo e algumas loop stations, ajudou-nos a viajar.


A viagem continuou com Kabeção & Mayuko nos hang’s. Um concerto bem calmo e extremamente bonito (talvez aquele que mais gostei) que o público ouviu atentamente.
O som do hang é bastante delicado e tem vindo a ganhar muitos fãs ultimamente.


Dubravko Lapaine que veio da Croácia foi o artista que se seguiu e onde a música acompanhou sempre uma mensagem. Apenas com didgeridoo tocou e encantou todos os presentes.
“Difficult is still possible” (O difícil não é impossível).


Para terminar os concertos a banda Muscaria Psico Waves, de Espanha, subiu a palco. Com uma máscara e um ritual de início incendiaram a última noite do festival. Uma junção de vários estilos musicais e instrumentos que terminaram em grande o FATT 2015.


O último dia, ou última manhã, é sempre triste. A despedida é necessária mas é só um até para o ano!


Durante as tardes do festival tive também o privilégio de entrevistar alguns dos artistas:

Sage (Evgeny Tolstykh)

Podes-nos falar um pouco do teu projecto?
É um projecto a solo onde uso alguns aparelhos electrónicos para combinar sons e criar alguns efeitos. Venho ao FATT como músico de didgeridoo mas também venho com outros sons. Costumo cantar músicas tradicionais russas mas aí é necessário entender o significado das palavras, é necessário saber a língua.

O que te inspira?
Tudo. Pode ser eventos como estes festivais, conhecer pessoas interessantes, viajar muito.

As viagens e os festivais ajudam na composição musical?
Trazem boas oportunidades de comunicação mas quando tenho de compor tenho de estar sozinho durante algum tempo e mover-me mas dentro de mim mesmo.

Até agora o que pensas do FATT?
A organização, o Ricardo e o resto da equipa, foram muito atenciosos durante todo o dia. O local é muito bonito. É a primeira vez que venho a Portugal, é diferente da Rússia mas podemos comparar um pouco com o Sul da Rússia perto do Mar Negro.

Qual é a mensagem por detrás da tua música?
É difícil pôr em palavras. A arte serve mesmo para isso, para aquilo que as palavras não conseguem explicar. Quando tocamos podemos pensar que estamos a passar alguma emoção mas para quem ouve pode ser diferente. E em diferentes ocasiões toco a mesma música mas com um sentimento diferente.

O didgeridoo é comum no teu país ou é mais alternativo?
É mais relacionado à música experimental. Os instrumentos mais modernos são complexos mas o didgeridoo é muito simples. É muito minimalista e às vezes é difícil torna-lo único e diferente. Gosto de usar alguns aparelhos que me ajudam a preencher o som.

E como entraste em contacto a primeira vez com o didgeridoo?
Uma vez conheci umas pessoas e um deles estava a tocar naquele “tronco”, ele não era muito bom, mas ouvi aquele som e achei bastante novo e único. Ele tinha trazido dos EUA. Naquela altura tocava guitarra e rock mas passei por uma crise artística pois achava tudo igual e já muito usado. O didgeridoo atraiu-me pelo som único, simples mas complexo.


Ab Origine (Gianni Placido e Mario Francavilla)

Para quem não vos conhece, quem são os Ab Origine?
GP - Vimos de Itália. Eu comecei a tocar didgeridoo há alguns anos em projectos a solo. Desenvolvi depois o projecto Ab Origine em duas formas, com outros músicos que conheci em jam’s e com o Mario onde toco em duo. Conhecemo-nos há dois anos e desenvolvemos alguns temas que eu já tinha composto a solo. Temos um novo formato de espectáculo e um novo álbum, “Keeping the wire”, que viemos aqui apresentar.
MF – O projecto é um cruzamento entre o som de várias partes do mundo. O didgeridoo moderno e o cajon moderno. O didgeridoo do Gianni não é tradicional bem como a forma moderna de o tocar assim como o meu cajon da música flamenca e peruana, é outro estilo similar ao estilo electrónico mas com muitas tradições de música de vários países como é o caso da música brasileira que estudei introduzindo o shaker e os bongos.

Como é que chegaram a esse cruzamento de culturas e géneros musicais?
MF – Com muita paixão.
GP – Com as viagens também. Eu por exemplo adoro a cultura indiana e fiz um tema em homenagem a Shiva, o deus da dança, da destruição e do caos. Temos músicas com influências indianas, afro-cubanas, etc. Mas para mim é importante ter uma ideia transversal, não só misturar as diferentes culturas. Tem de haver um significado que una tudo. Quero transmitir algo que toda a gente entenda independentemente da sua cultura.

No som?
GP – Na ideia atrás do projecto e não tanto na sonoridade.
MF – O nosso nome, Ab Origine…
GP – Sim, o nosso nome não vem da cultura aborígene. Vem do latim e significa “da origem”. O início, de todos nós.

O que estão a achar do festival?
MF – É um festival muito agradável, mais pequeno do que estamos habituados mas muito bom. Estou bastante relaxado.
GP – É muito amigável. E bem organizado.

O que podemos esperar do vosso concerto?
GP – Que as pessoas dancem e se divirtam!


Dubravko Lapaine

Para os nossos leitores que não te conhecem o que podes explicar acerca do teu projecto?
Venho da Croácia e devoto a minha vida a explorar as possibilidades do didgeridoo. Deixei tudo para trás na minha vida, era matemático e trabalhava numa Universidade. Há oito ou nove ou anos atrás. Toquei muitas horas por dia, fui bastante disciplinado e fui entrando cada vez mais na vastidão do som do didgeridoo e apercebi-me das imensas possibilidades que nunca considerara.

Como é que entraste em contacto com o didgeridoo e toda a sua cultura?
Descobri o “tubo” a primeira vez numa loja em Zagreb, onde moro. Acabava sempre por voltar lá sem saber sequer para que é que esse tubo servia. Quase todos os dias voltava a essa loja e algo me puxava, foi antes da internet e por isso a informação espalhava-se de uma forma muito diferente. Não imaginava nessa altura vir a tornar-me músico profissional.

É comum o instrumento no teu país ou mais alternativo?
Não é comum em lado nenhum. A cultura didgeridoo é muito antiga e agora tornou-se um instrumento muito fresco. Por um lado é um instrumento que nos traz liberdade mas por outro nos anos 80 e 90 acabou por ficar ligado a uma cultura mais hippie e não foi publicitado por isso não é de todo mainstream. Para o didgeridoo se tornar mais popular toda a consciência tem de mudar.

O que te inspira?
As possibilidades infinitas. Quando estava ligado à matemática não sentia que podia ter um impacto no mundo mas com o didgeridoo já sinto o meu contributo para os outros. Também posso dizer que a minha inspiração interior provém de uma meditação, se bem que ao dar um nome acaba por perder o significado mas é uma maneira de encontrar um lar dentro de mim. Não preciso de ler livros ou de aprender como fazer, o próprio instrumento guia-me.

O que estás a achar do FATT?
É o sítio certo para se estar neste momento, a energia está a crescer. A energia da cultura didgeridoo entrou em vários países em alturas diferentes. São ondas de crescimento e decréscimo. Em Portugal a história do didgeridoo começou relativamente tarde e por isso agora a onda ainda está a crescer. O lugar é bonito e as pessoas são bonitas.


Kabeção

Gostaria de saber quando é que começaste a ter contacto com o didgeridoo e com a cultura aborígene?
Foi em 2007 no MEO SW. Havia uma banca de instrumentos musicais e curiosamente estava lá um didgeridoo e no dia anterior tinham tocado os Blasted Mechanism, que utilizam esse instrumento, e eu tinha ficado fascinado. Nessa banca experimentei e acabei por ficar com um.

O que é que te inspira?
A vida. Cada momento inspira-me.

O que achas do FATT e do que traz para a cultura didgeridoo em Portugal?
O FATT para mim é um dos melhores festivais em Portugal. Primeiro porque é muito familiar, as pessoas vêm mesmo para este conteúdo, para esta essência do didgeridoo e isso acaba por juntar pessoas com os mesmos ideiais. É um festival também bastante interessante a nível musical. Não falho este festival há sete edições e há seis edições que tenho sempre tocado nele.

Qual é a mensagem por detrás da tua música? O que pretendes transmitir?
Tento transmitir a minha essência, partilhar um pouco do meu interior. A mensagem também depende um pouco do momento, os meus concertos são muito espontâneos. Depende da energia, do público, da pessoa com quem esteja a tocar, … A mensagem é sempre diferente, é mesmo do momento.

Esta noite vais tocar com outro artista. O que podemos esperar desse concerto?
Podem esperar um belo momento. Por acaso não toco com ele há sete meses e vamos tocar hoje, vamos ver o que acontece.

Vai ser muito à base do improviso ou está tudo mais ou menos combinado?
O combinado é não estar combinado. Mas vai fluir.

Como foi a experiência do programa televisivo que participaste (Got Talent)?
Abriu-me várias portas. As pessoas hoje em dia conhecem-me mais, sou artista de rua e toco em outros festivais lá fora. Mas depois do programa as pessoas começaram a dar mais valor e a reconhecer mais o meu trabalho e tenho recebido imensos convites e imenso carinho.


João Jardim

Como começaste a ter contacto com a cultura aborígene e com o didgeridoo?
Bom, o meu primeiro contacto com a cultura aborígene foi através dos documentários da National Geographic que davam no canal Odisseia. Mas foi em 2007 que ouvi e vi o didgeridoo pela primeira vez, num concerto dos Blasted Mechanism na ilha da Madeira, onde fiquei maravilhado e muito curioso pelo som que vinha do ‘’tubo mágico” (nome que chamava na altura). Só passados uns 5 meses é que uma ex-namorada me ofereceu um didgeridoo de Teca, tipicamente encontrado nas feiras de artesanato e instrumentos do mundo, começando aí a minha viagem com este instrumento.

Como caracterizas esta cultura em Portugal? Está em crescimento?
A meu ver, o didgeridoo em Portugal está cada vez a ganhar mais adeptos. Se formos a ver o crescimento do público nas últimas edições do festival FATT, o número de bandas com didgeridoo e os tocadores que têm vindo a aparecer, certamente é sinónimo de um movimento em crescimento. Além do mais, o festival FATT tem vindo a despertar a curiosidade de muitos países, sendo até considerado por algumas pessoas como o 2º melhor festival de didgeridoo da Europa.

O que pensas do FATT e do papel que tem para esse possível crescimento?
O FATT é um grande motor para este movimento perdurar, é nele que muitas pessoas vêm buscar inspiração, graças aos super line ups que este festival oferece e à partilha que lá existe, para não falar nos 3 dias de puro relaxamento. Devo muito a este festival, foi aqui que conheci muitas pessoas que me ajudaram a crescer com este instrumento e foi onde nasceu e cresceu o Khayalan-trio (grupo a que pertenço). 

O que é que te inspira?
As pessoas em geral, existem muitos artistas de referência na minha vida, mas sinto-me muito estimulado quando vejo a alegria das pessoas quando me ouvem. Também adoro quando estou rodeado de músicos, especialmente os que não tocam didgeridoo e encontro novas formas de usar este instrumento, sair de alguns clichés criados em torno do mesmo e procurar novos sons e texturas.

Gostámos bastante do teu concerto na primeira noite do festival. Sentiste a energia do público da mesma forma que sentimos a tua?
Definitivamente, aliás foi incrível o que me fizeram sentir. O público teve muito impacto na escolha e performance dos temas que queria apresentar, tentei ser o mais fiel às minhas composições, mas estendi algumas partes e improvisei muito seguindo as vibrações que se iam gerando. 

A participação neste género de festivais e as viagens são importantes para a composição?
Completamente, as viagens que tenho feito com e pelo instrumento têm ajudado imenso seja na minha impulsão como tocador a nível mundial, como também são partes de um processo de aprendizagem que nunca irá acabar. Participar neste género de festivais é importantíssimo para mim, pois é assim que aprendo a ganhar mais confiança em mim mesmo e a melhorar as minhas composições e performance em palco.


O SouMúsica.pt quer agradecer à organização do FATT, especialmente à Susana, pela fantástica forma como nos receberam e a todos os artistas que despenderam algum do seu tempo para a realização destas entrevistas.



Texto: Sofia Robert

Fotografias: Luís Carvalho

Instagram e Twitter: @soumusicapt

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