quarta-feira, 29 de julho de 2015

Leo Cavalcanti - Entrevista


Leo Cavalcanti, cantautor e multi-instrumentista brasileiro, vem ao nosso país com um concerto marcado para quinta-feira no Musicbox em Lisboa e outro no dia 5 de Agosto na Ilha da Madeira. Artista que já despertou a atenção dos seus pares como Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto traz na bagagem dois álbuns, “Religar” e “Despertador”. Em vésperas do primeiro concerto estivemos a conversar com o artista:


Como descreveria a sua música?

O que faço é canção, e elas servem para mim - como diz a letra da canção “Inversão do Mal” - como um trampolim, pra mergulhar dentro de mim. Tem uma função terapêutica. De mergulho e de meditação. Um espaço para realizar a potência de meus sonhos. Poderia chamá-las então de “pop terapêutico”.

Não gosto de me deter em géneros musicais. A música brasileira de todos os tempos é uma grande fonte – mas também a Soul music americana, a música oriental, o flamenco, o pop eletrónico atual, entre tantos outros. Nasci em São Paulo e minha formação musical é naturalmente muito cosmopolita. Portanto, é inevitável que minha canção não tenha exatamente uma pátria, apesar de, sim, ser bem brasileira.

Gosto de fazer com que cada canção expresse seu próprio universo, seu próprio retalho de influências. E de brincar, de inventar categorias musicais para a música que faço, uma vez que essas categorias “de mercado” não dão conta para descrever boa parte dos trabalhos feitos hoje em dia.

Já dei e já deram alguns apelidos para meu trabalho: pop transcendental, pop intergaláctico, (no caso do disco Despertador, pelos synths espaciais presentes neles) são alguns. É divertido por que cria um certo enigma, alem de dar direções para a interpretação de cada um...e assim sair das caixas tradicionais.


Onde vai buscar as suas inspirações?

Minhas inspirações tendem a ser as minhas maiores questões existenciais. Me considero um “romântico espiritual”, ou seja, tenho paixão pelas questões que querem ir de encontro com a essência das coisas. E compor, para mim, é um instrumento terapêutico, e portanto uma necessidade. Um espaço para dar vazão a essas questões. E dar direcionamento a elas. Transformar as crises em pérolas.

Meu contacto com o Yoga e com ferramentas de autoconhecimento e de espiritualidade foi decisivo para eu compor de uma nova maneira, sob outros pontos de vista. Sinto-me canal de algo que é maior que eu. Não estou falando de “mim“ ali e não é isso que interessa. E isso faz-me sentir muito bem.


Como é levar a sua música a outros países, neste caso ao nosso Portugal?

Tem sido muito enriquecedor. Sempre saio com o sabor da música local, e dos olhares dos novos ouvintes, e isso amplia muito meus horizontes. Faz-me me ver também minha música por outros ângulos que antes desconhecia. Foi assim na Argentina, onde fiz uma longa tournée, e onde a maioria das pessoas não conhecia meu trabalho, ou seja, ouviram sem preconceitos e celebraram a seu modo. Isso é muito valioso. Além de entrar em contato com a música argentina de forma inédita pra mim – e eu fiquei completamente apaixonado. Assim também foi na Alemanha, onde fiz uma residência artística.

E agora em Portugal, é como um sonho. Pois a força que esse lugar exerce em mim é grande e difícil de explicar. Tem a ver com ancestralidade e identificação, claro, pois a história do Brasil e Portugal é absolutamente inseparável. Fazemos muito parte um do outro e isso tem uma beleza muito grande. E a música portuguesa, mais propriamente o Fado, é algo que me encanta deveras e me eleva profundamente.


Tem sido boa a recepção além-fronteiras?

Muitíssimo. Esse ouvido sem preconceito do além-fronteiras é muito confortante e revigorante. Sinto-me reconhecido pelo que vibro, pela minha música em estado puro, sem pré-julgamentos. Me livre para ser o que quiser ser.


Vários artistas teceram elogios ao seu trabalho. Qual a sensação de receber tais críticas dos seus colegas, alguns deles com carreiras tão longas e célebres como a de Caetano Veloso?

Uma honra absoluta. Caetano é um génio de magnitude imensurável. Seu tamanho para o Brasil ainda está por se aumentar, mesmo sendo gigante. Vejo esse reconhecimento como um estímulo, e não como um título. Sei que estou ainda num início de uma estrada. Quero mais.


O que podemos esperar deste concerto em Lisboa amanhã?

Um concerto voz & violão onde minha música está despida dos tanto “layers” e alegorias presentes nos meus dois discos. Sou eu e a canção, nua e crua. É onde se encontra a essência do que faço. E por isso, esse formato tem uma potência especial. Faz muito sentido para mim neste momento. É o show que me deixa mais dentro da música que faço. Considero-o o cartão-de-visita perfeito para quem quer conhecer meu trabalho.

Além disso, terá a participação do Tomás Cunha Ferreira, da maravilhosa banda portuguesa Os Quais. Isso será um grande presente!





Entrevista: Sofia Robert

Instagram e Twitter: @soumusicapt
 

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