domingo, 19 de julho de 2015

Felipe Antunes - Entrevista

O cantor e compositor brasileiro Felipe Antunes veio ao nosso país na passada semana para apresentar alguns dos seus temas a solo bem como do seu grupo Vitrola Sintética. Tivemos a oportunidade de falar com o artista:

Quem é Felipe Antunes?

Olha, acaba sendo uma pergunta curiosa porque, pelo menos no Brasil, esse nome tem de monte! Mas respondendo por esse aqui, me entendo como em transição, e por isso também dizer "me entendo" já não é tão simples, apesar de tentar ser por assim honesto. O que quero dizer é que a transição, o processo, a variabilidade me encantam, então é natural que eu me entenda como buscando compreensão. É quase existencial, mas verdadeira e instigaste essa busca, já que estamos mesmo por um tempo nessa terra.


Como tem sido a recepção à sua música deste lado do Atlântico?

Muito atenta, esse formato de concerto me permite maior conexão com o público. Só sou eu com voz, violão e piano, é um concerto muito silencioso, depende muito de silêncio, e sempre quando isso é, de alguma forma provocado, as pessoas têm compartilhado do meu estado de atenção em palco. Parece um "adjetivo" estranho, ou nem parece um adjetivo, mas pra mim é dos maiores. Despertar o estado de atenção seguido de emoção é, nesse nosso tempo de velocidade e dispersão, algo cada vez mais raro e contrário ao que deveria ser de fato o natural. Então, por isso, agradeço e estou muito feliz com a atenção.

De onde vai beber as suas influências?

De muitos lados. Penso um pouco nas inspirações e influências como sendo a própria vivência, sabe? Porque as coisas que fazemos devem ser, ao máximo, prazerosas e condizentes com aquilo que a gente acredita e que nos faz bem. Mas sendo um pouco mais direto, o que me inspira, por exemplo, é assistir filmes de algum diretor(a) que por acaso me chame atenção num determinado período, como agora, que tenho gostado e ficado curioso com a filmografia de Blake Edwards; ou algum escritor(a), como Marçal Aquino, Campos de Carvalho ou o próprio Miguel Esteves Cardoso - que adorei ter descoberto recentemente "o amor é fodido"; talvez um espetáculo de dança, como há pouco vi do grupo que minha prima, Poliana Lima, é coreógrafa em Madrid; é estar por perto das artes plásticas em movimento, dando exemplo de Antônio Herrera Dela Muela, também de Madrid, que tive a oportunidade de acompanhar o processo de criação; também no teatro, respirando junto com amigos dispostos a experimentar; e por fim na música, além das composições e atuações que acompanho, é a possibilidade de interação; fazer música é fazer amigos, é estar com eles e trocar o tempo todo.

Qual a mensagem por detrás das suas canções?

Nunca pensei se existem mensagens, e na verdade nunca compus pensando que ali poderia haver uma mensagem. Digo isso do ponto de vista mais geral, porque é claro que do ponto de vista mais pessoal, íntimo, devem e existem mensagens, mas muitas delas eu mesmo ainda não entendi. E algumas delas - parece estranho mas às vezes acontece - acabo entendendo depois. No fundo pode ser que eu esteja sempre enviando mensagens a mim mesmo, ou que haja simplesmente uma falta de mensagem, quero dizer, estou ali apenas deixando fluir o que de alguma forma precisou sair, sem intenção de criar compreensão em alguém ou ter alguma genialidade encoberta de canção. 

Quais são as maiores diferenças entre Vitrola Sintética e o projecto a solo?

Apesar de compor grande parte das canções do Vitrola, vejo diferença ja no início do caminho. No Vitrola somos quatro pensando, por exemplo, se as composições que estão ali agradam a todos, ou se pelo menos grande parte delas agradam, para depois seguirmos para o processo. Depois disso o caminho vai naturalmente acontecendo, independente do pensamento prático e intencional de cada um no princípio. No solo, pelo menos nesse primeiro, pude fazer opções de partida, e junto disso carrego o peso da responsabilidade de onde isso vai chegar. No caso do solo optei por aventurar um pouco mais para a poesia, flertando mais de perto ainda do que já acredito com a literatura. Não acho que é um grande processo experimental, mas acho que é uma ótima experiência enquanto exploração artística. Tenho muitas idéias da finalização dele, inclusive já enxergo seu formato físico, e, assim como o novo do Vitrola (o Sintético), não deve vir tradicional.

Qual dos dois dá mais prazer?

O prazer está em tudo, está principalmente na possibilidade, que eu agradeço muito, de poder conviver com os dois; de ter parceiros diferentes em cada mas igualmente conectados comigo nos dois; de saber que vamos brigar juntos e celebrar juntos nos dois; e, por fim, o prazer está mesmo é nessa sorte de encontrar pessoas que fazem bem e que te dão a honra de dividirem sua obra juntos. Cito aqui, do Vitrola: Otavio Carvalho, Rodrigo Fuji e Marcelo Bonin; participando do "Sintético": Maurício Pereira, Bárbara Eugenia, Gustavo Ruiz, Gui Calzavara, Fe Stok e André Molineiro; no meu solo - ainda em gravação - Kezo Nogueira, Leo Mendes, Rafael Montorfano (Chicão), Meno Del Picchia, Thomas Rohrer; participando: Ná Ozzetti, Helio Flanders, Bocato, Enzo Banzo, Arthur Matos e Juliana Perdigão. Não dá para saber o que é mais prazeroso nisso tudo; repito, é tudo sorte.


Felipe Antunes: http://felipeantunes.com/ 



Entrevista: Sofia Robert


Instagram e Twitter: @soumusicapt
 

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