domingo, 28 de junho de 2015

Os Cabos Soltos - Entrevista

Os Cabos Soltos são dois. André Leitão e Paulo Soares, guitarristas do Porto juntaram a sua imensa paixão pela música e criatividade com a colaboração de artistas amigos e apresentam o seu primeiro álbum. "Crónicas do Tempo" é um álbum conceptual e independente. Aqui narra-se a história da vida e morte de um casal durante a implementação de um novo regime nacional-socialista. O álbum encontra-se disponível nas plataformas online habituais e para download gratuito no BandCamp. O álbum em formato físico encontra-se disponível através do site da banda e inclui o conto do álbum, um poster com a ilustração da história, letras e créditos. O talento da dupla não se esconde só por detrás das guitarras, houve espaço para um excelente composição e conceito. Falámos com ambos:


De onde surgiu o mote que deu origem a esta história?
André Leitão - A ideia foi a de, essencialmente, visualizar o nosso futuro enquanto espécie coexistente neste formato social e mostrar o pior resultado de todos os possíveis. Sabemos que a história tem tendência a repetir-se, que vivemos numa época de recessão económica, que cerca de 700 mil portugueses já saíram do país em casos de extrema necessidade, dor e tristeza; e que todo o grupo político que gere esta coexistência social não é confiável. Queríamos fazer um álbum conceptual, é o tipo de trabalho que faz parte das influências de ambos. Optámos então por criar um disco que narrasse esta história extremamente triste provando mesmo assim que existe sempre uma luz de esperança ao fundo do túnel – nem que isso signifique a própria morte em si: que do ponto de vista dualista implicará sempre a existência de uma alma, ou de uma consciência se assim quisermos colocar a questão. E sem querer acabámos por criar um álbum conceptual de intervenção, cuja história toca em todos os pontos mencionados acima.
Havia já alguma parte musical construída ou tudo surgiu depois do conceito?
André Leitão - Enquanto músico, sinto a constante necessidade de criar coisas novas. Digo “coisas” pois na realidade não estou a falar de músicas acabadas, com princípio meio e fim, mas sim de ideias soltas, riffs, estruturas ou até mesmo poemas que poderão um dia dar uma boa letra. Sei que com o Paulo a coisa funciona de forma bastante similar. Portanto sim, apesar de a maior parte do material ter sido construído de forma propositada para o álbum – algo que neste tipo de trabalhos, tendo uma história tão complexa para seguir, é um dos pontos que tem de ser bastante cuidado – existiram sempre ideias soltas que já haviam nascido e estavam ali adormecidas nas incubadoras dos nossos computadores, iPods, iPads ou telemóveis prontas para se tornarem em produtos finais.
Devo dizer que o bónus do conto é muito interessante (e bem escrito!). Como foi o processo de construção de cada elemento, do conto ao álbum e ao poster?

Paulo Soares - Tentando resumir algo tão longo como todo este processo, a ideia do álbum que fosse também uma história, uma viagem, surgiu primeiro. O André tinha a narrativa definida já com algumas músicas também preparadas para fazer parte do álbum, tendo eu entrado inicialmente como “ajudante” e ao longo do trabalho acabaram por nascer “Os Cabos Soltos” no formato em que hoje existem. Foram utilizadas músicas já existentes e também outras compostas de raiz para este projecto bem como adicionadas novas partes onde achámos necessário. O poster e o conto acabaram por ser ideias que pensamos ajudarem ao acompanhar da história por parte do ouvinte.

André Leitão - Sim, da nossa parte seria fantástico não termos de ceder esse tipo de pistas. Porém apesar de sabermos que temos muitos fãs que compreendem este tipo de trabalho, queremos também puxar para nós outro tipo de público que ainda não conhece este lado profundo de criar música iniciado com os The Kinks em 66, seguidos pelos Beatles em 67, passando pelos Pink Floyd, King Crimson ou Genesis. E nesse aspecto, o conto e o poster são uma ajuda muito boa para se compreender as mensagens que o álbum tenta passar e que não são percetíveis nas primeiras audições.
Quem é este casal?
Paulo Soares - São as personagens principais que dão corpo às mensagens e ideias que estão presentes no álbum, no fundo são elas que sofrem todas as consequências da narrativa para o bem ou para o mal.
André Leitão - Num mundo em que as crianças crescem com a noção de que ter um namorado(a) é uma prioridade quase irrevogável (para a sua aceitação social, aparente felicidade, bem estar ou independência) foi de um gozo extremo poder testar um amor do calibre destas duas personagens e vê-lo desmoronar-se pedaço a pedaço ao longo do álbum. Muita gente quando chega ao pequeno twist a meio do álbum fica chocada. Mas nós não estamos aqui para ser óbvios, queremos fazer coisas diferentes. Se surpreendermos, como foi o caso, melhor! 

Qual é a mensagem que se esconde por detrás de toda a narrativa?

Paulo Soares - É díficil identificar apenas uma mensagem, apenas um tema. Há várias mensagens, um pouco de promessa de algo melhor, desespero, raiva, caos emocional...mas também aceitação e esperança. É uma viagem que passa por diversas fases e o mais desafiante será cada ouvinte retirar também a sua própria mensagem da obra.

André Leitão - É uma mensagem global que contém em si muitas mensagens específicas. Grande parte já se encontra decifrado no conto e poster, mas ainda existe muito para descobrir que não foi nem será revelado.
  
Irá haver apresentação ao vivo deste álbum? Se sim para quando e prepararam alguma forma complementar à música para contar a história?

Paulo Soares - É um desafio que gostariamos muito de abraçar, e se for possível contamos apresentar este trabalho ao vivo.

André Leitão - Sem dúvida! 
 
Mudavam alguma coisa neste vosso trabalho ou está tudo exactamente como tinham imaginado?

Paulo Soares - Há sempre arestas por limar e sendo a nossa obra encontramos sempre pequenos pontos que mais tarde achamos que poderiam ter sido feitos de forma diferente, a maioria não faria grande diferença para o público admito. São “picuices” de músico! Foi no entanto acima de tudo um processo que nos deu muito e acredito que nos fará melhorar ainda mais nos próximos projectos. 

A originalidade em todo o vosso trabalho vai até ao vosso nome, o qual gosto bastante. Porquê Os Cabos Soltos?

André Leitão - Uma vez que somos apenas dois guitarristas, o acto de convidar músicos amigos para assumir os outros instrumentos é uma necessidade incontornável. Essa foi assim a primeira ideia que despertou para o nome “Os Cabos Soltos”, assim como o detalhe do “Os” a fazer homenagem a tantas bandas (maioritariamente britânicas) cujo nome começa por “The”. Depois o peso do nome vai evoluindo e começa a ganhar um significado mais profundo para cada um de nós.

Paulo Soares - Para mim Cabos Soltos sugere-me um prender consentido... As melhores coisas da vida prendem-nos sem nos amarrar, somos nós que escolhemos agarrar esses “cabos”. Parece-me uma boa mensagem e é um nome que me agrada bastante.


Os Cabos Soltos: www.facebook.com/oscabosoltos
BandCamp: www.oscabosoltos.bandcamp.com/



Entrevista: Sofia Robert




like thump up facebook chat emoticonshttps://www.facebook.com/soumusica.pt
 

Instagram e Twitter: @soumusicapt

Sem comentários:

Enviar um comentário